Cantora muda para continuar a mesma: sóbria, sutil, convicta

Eis o previsível: intriga o fato de os novos trabalhos de Maria Bethânia e Gal Costa despertarem nas redes sociais uma espécie de confronto Chico versus Caetano. Bethânia regravou um clássico de Buarque (Velho Francisco) em Oásis e Gal está toda à mercê de Veloso em Recanto. Render-se a esse embate, porém, é tão raso quanto dizer que Oásis é mais um álbum convencional de Bethânia. A aventura aqui está na variação de arranjadores e músicos insuspeitos, com sonoridades e formações instrumentais diferentes a cada faixa, mas também na complexidade das canções. Jaime Alem, seu fiel maestro, ficou apenas com uma delas. Parafraseando a letra de Paulo César Pinheiro em Salmo (parceria com Rafael Rabelo e uma das canções mais rebuscadas do CD, com arranjo e piano de André Mehmari), pode se dizer que Bethânia canta além dela.

O Estado de S.Paulo

29 Março 2012 | 03h10

Cada faixa reserva algo peculiar, como ter apenas o bandolim de Hamilton de Holanda (o que não é pouca coisa) acompanhando seu canto em Lágrima (Cândido das Neves) Lenine traz seu suingue para Velho Francisco, uma das duas únicas faixas mais "agitadas" do álbum.

A outra é Carta de Amor - letra e música de Paulo César Pinheiro, alternada com texto de Bethânia e arranjo de Marcelo Costa, com muitas quebras de ritmo, clima e andamento, recado pessoal contra os detratores ("não mexe comigo que eu não ando só"). Com mais de sette minutos, é a faixa mais longa e o arranjo mais inesperado do CD.

Entre mexidas no baú, poema de Fernando Pessoa e inéditas - de Djavan, Jota Velloso, Marino Pinto e Paulo Soledade -, destacam-se três canções preciosas do baiano Roque Ferreira, expondo outras facetas que não a de sambista. Casablanca é dolente, nostálgica, bela como Fado, naturalmente melancólica, com o arranjador Jaime Alem tocando violão e violas. Já Barulho, de letra passional, tem como único instrumento o piano de Vitor Gonçalves.

Há quem tenha prenunciado que Oásis continua com cheiro de Brasileirinho. Na concepção talvez, mas não na sonoridade. Bethânia muda para continuar a mesma. Sóbria, sutil e convicta, com a personalidade intacta.

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