Tasso Marcelo/AE
Tasso Marcelo/AE

Canto de Bibi

Show de comemoração dos 70 anos de carreira terá uma única audição, na quarta-feira, em São Paulo

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2010 | 00h00

Os vizinhos de Bibi Ferreira já não se surpreendem mais em acompanhá-la andando pela sua casa, no Rio, cantando sem parar - é a forma que ela encontra para melhor ensaiar as músicas que vai apresentar em algum show. Assim, fados de Amália Rodrigues e chansons de Edith Piaf fazem parte de um repertório já clássico, mas Bibi tem deixado a vizinhança ainda mais admirada: passou também a cantar tangos. E Cazuza. E Adriana Calcanhotto. E até Roberto Carlos.

"Quero mostrar uma grande variedade de músicas na apresentação que vai abrir as comemorações de meus 70 anos de carreira", disse ela, feliz da vida com o show De Pixinguinha a Noel, Passando por Gardel, que terá apenas uma única audição, no dia 13, no Teatro Bradesco, no Shopping Bourbon. Trata-se de um grande painel em que Bibi rememora grandes momentos dos cancioneiros internacional e brasileiro.

A ideia, aliás, é antiga, da época em que ela atuava na peça Às Favas com os Escrúpulos, há três anos. Como o sucesso se estendia - foram mais de 350 mil espectadores -, o plano ficava na gaveta. A peça encerrou temporada em 2009, justamente quando ela iniciou a turnê de Bibi Canta e Conta Piaf, espetáculo criado por conta do ano da França no Brasil. Mais um sucesso, com 70 shows pelo País.

Finalmente, no início do ano, Bibi, incansável aos 88 anos, conseguiu organizar seu novo espetáculo. Contou com a colaboração do maestro argentino Ignácio Varchausky, dedicado pesquisador que a ajudou a montar o repertório de seu CD Tango, lançado em 2006. O projeto era ousado - unir uma refinada seleção de músicas brasileiras com o mais puro tango portenho.

São dois atos. No primeiro, Bibi revive grandes sucessos de sua carreira, especialmente nacionais. E, no segundo, emenda o puro tango com standards internacionais, como o fado e Piaf. Uma colcha de retalhos muito bem alinhavada mas que pedia uma aprovação.

E o teste aconteceu justamente em Buenos Aires, onde Bibi se apresentou em abril. Um sucesso, com os críticos entusiasmados com uma interpretação pura, sem vestígios de maneirismos estrangeiros. Assim incensada, ela decidiu se apresentar no Brasil, começando por São Paulo. Sobre o trabalho, Bibi conversou com a reportagem do Estado, para quem, em alguns momentos privilegiados, cantou trechos de tango. Uma empolgação justificada pois, naquela tarde, ela foi acompanhar, emocionada, a primeira audição de seu novo CD, Bibi Ferreira Brasileira - Uma Suíte de Amor, a ser lançado pela Biscoito Fino.

Qual critério que você usou para escolher o repertório?

Canto melhor aquilo de que mais gosto - esse é o meu critério. O nome do show resume bem isso: Pixinguinha a Noel, Passando por Gardel. Assim, canto composições desses artistas, e também samba de breque, Tom Jobim e, claro, tango.

Aliás, essa paixão pelo tango nasceu porque sua mãe, a corista Aída Isquierdo Ferreira, era argentina?

Sim, por conta dela que me fez aprender primeiro o espanhol do que o português. Saí do Brasil com 1 ano de idade e fui para Buenos Aires. E, com minha mãe, viajei pela América do Sul e Central, atravessando o Panamá, chegando a Cuba, e voltando pelo mesmo caminho. Fizemos isso duas vezes em uma época em que não existia o avião comercial - viajamos de trem e navio. Minha mãe era de uma Companhia de Revista espanhola e eu, sua acompanhante. Voltei para o Brasil quando estava com 5 anos e só falava espanhol.

E ouvia muito tango, não?

Claro, minha família é argentina e uruguaia. Em casa, meu tio trabalhava no consulado argentino no Rio e levava aquele pessoal que chegava para o cassino, como Hugo del Carril, para minha casa, onde minha avó cozinhava muito bem e servia um almoço enorme para todos eles, que estavam acompanhados de seus violões. Assim, ouço tango desde criança.

Não há melhor escola para aprender.

Com certeza. Para você ter uma ideia de como aprendi todas as nuances do tango, outro dia, o maestro argentino Ignácio Varchausky, que participou de meu disco de tango e hoje comanda a orquestra El Arranque, que vai me acompanhar no show, enviou uma outra canção para eu estudar. E disse: "Não vai ser difícil pois você canta tango desde pequinininha." Mas, antes de estar acompanhada da orquestra, preparo uma surpresa.

E qual vai ser?

O bloco vai abrir com um solo de um grande pianista, Diego Schissi, que cuidou dos arranjos do meu CD. Em seguida, canto dois tangos acompanhada por ele, Milonga Triste e Yo Soy el Tango, para então entrar a orquestra El Arranque, quando todos nos unimos. Quisemos fugir do óbvio e buscar a essência do tango. Mas essa é a homenagem argentina - tem ainda a portuguesa, em que canto três fados e terminamos todos cantando Ponteio, de Edu Lobo. Por isso, passo o dia todo andando pela casa, cantando, cantando.

É por conta desse esforço que você consegue atender às exigências técnicas do canto sem perder o que os portenhos chamam de "la mugre", aquela sujeira do tango cantado nos subúrbios pobres de Buenos Aires?

Sim, tive maestros fenomenais entre aqueles frequentadores que me ensinaram a dramaticidade da canção, e aquele fraseado típico, que impõe um ritmo nostálgico.

Seu CD Tango é de 2006. Por que você demorou tanto para gravar esse tipo de canção que domina há tanto tempo?

Na verdade, demorei para gravar qualquer coisa, pois nunca me interessei em registrar em disco. E, não bastasse aquele, com tangos, vou lançar agora outro CD, chamado Bibi Ferreira Brasileira - Uma Suíte de Amor. É totalmente composto por canções nacionais, pois até agora estive muito ligada ao tango, a Amália Rodrigues e a Edith Piaf. O disco tem algo singular: não se trata de um encadeamento de faixas, mas de uma apenas. Começa com um piano que, sem parar, leva todas as canções até o final. E vai contar ainda com Francis Hime solando Minha Namorada, do Carlinhos Lyra, e Minha, do Jobim. Seus solos surgirão entre os meus cantos, sempre mantendo o tom. Assim, não se perde o clima.

Isso exigiu muito ensaio, não?

Muito, especialmente ensaios sozinha, até dominar completamente a canção. Ah, e canto também Cazuza e Adriana Calcanhotto, não quero deixar ninguém de fora. Estudo muito, cuido da respiração, e ando pela casa cantando, cantando.

Tem mais alguma surpresa para o show?

Bem, se me der na telha, canto Roberto Carlos.

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