Cantigas do século 13 são tema de pesquisa

Numa sala do programa de pós-graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), a professora Ângela Vaz Leão guarda um precioso documento da época medieval. Adquiridos há oito anos pela universidade, os dois volumes das Cantigas de Santa Maria, uma obra confeccionada no século 13 e composta de 427 poemas, com iluminuras (ilustrações de livros medievais) e notações musicais, foram um dos temas centrais do 4.º Encontro Internacional de Estudos Medievais (Eiem), realizado em meados de 2001 na própria PUC Minas e cujos anais acabaram de ser publicados.Escritas em galego-português, as cantigas fazem parte da poesia religiosa de dom Afonso X (rei de Castela, 1221 a 1284). Devoto à Virgem, o Sábio, como era conhecido o monarca, dedica os poemas ao relato dos milagres atribuídos à santa. No mundo, conta Ângela, existem ainda quatro manuscritos contendo a obra de dom Afonso X. A PUC Minas adquiriu em 1995 os fac-símiles dos manuscritos na Espanha para as pesquisas do programa de pós-graduação em Letras. A opção foi pelo trabalho religioso do monarca, que também produziu poesias trovadorescas profanas (cantigas de amor, de escárnio e maldizer).Com a autoridade de quem estuda o assunto há mais de dez anos - ela é coordenadora do Grupo de Estudos das Cantigas de Santa Maria, o único do Brasil a se debruçar sobre o tema específico -, a professora salienta que, por meio da narração dos milagres, é possível identificar aspectos da vida medieval nos conventos, os ofícios, o lazer, as doenças mais comuns e a forma como elas se manifestavam, além do jogo e da prostituição. "As Cantigas de Santa Maria são consideradas hoje uma das fontes mais importantes para o conhecimento do cotidiano da Idade Média", diz Ângela, que contesta o imaginário comum que elegeu o período medieval como um longo período de trevas, metáfora da ignorância e do atraso.Latim macarrônico - A base da narração dos milagres era feita a partir das histórias dos peregrinos e das visitas aos santuários. Ângela observa que, ao contrário do Oriente Médio, onde o culto à Virgem Maria ocorreu muito cedo, ele só veio a aparecer posteriormente na Europa. "Esse culto é tardio. Começa timidamente nos séculos 10.º e 11, aumenta no século 12 e chega ao apogeu no século 13", diz a professora, ressaltando que esse período é considerado na história da arte como o século da arte gótica.Naquela época, explica, praticamente todas as catedrais construídas foram dedicadas à Virgem. Os fiéis deixavam ao pé da imagem - em "latim macarrônico", segundo ela - a história do milagre que haviam recebido, além de cânticos dedicados a Maria. A partir desses relatos, dom Afonso produziu as cantigas. Para os trabalhos, contou com diversos colaboradores, entre eles desenhistas, poetas, miniaturistas, músicos e tradutores. O grupo ficou conhecido na história como a Escola de Tradutores de Toledo. Ângela destaca que o processo de trabalho do rei de Castela era feito em "regime corporativo". "Ele (dom Afonso) recebia sábios das três culturas (muçulmana, judaica e cristã) que existiam então em convivência naquela Espanha tão tolerante, diferente de hoje."Pesquisa - Desde a criação do grupo interdisciplinar da PUC Minas, as Cantigas de Santa Maria já foram tema de 11 dissertações de mestrado e duas teses de doutorado. Uma delas está sendo defendida pelo maestro Sérgio Antônio Canedo, formado em regência e composição pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Em sua tese, ele aborda a estrutura da musicalidade dos poemas. Os anais do 4.º Eiem, que reuniu no campus da PUC Minas 500 pesquisadores, professores e outros estudiosos interessados na Idade Média, foram organizados por Ângela Vaz Leão e pela professora Vanda de Oliveira Bittencourt. Em julho deste ano, o quinto encontro da Associação Brasileira de Estudos Medievais (Abrem) foi realizado na Universidade Federal da Bahia (UFBA).

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