Cantata para Anne Frank

A inédita obra inspirada nos diários da menina judia alerta para os Direitos Humanos

JULIO MARIA, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2012 | 03h11

Antes mesmo de conhecer o depósito de almas judias de Bergen-Belsen, na Alemanha nazista, Anne Frank vivia no limites das pressões psicológicas que uma garota de 13 anos poderia suportar. De repente, seu mundo improvisado pelos pais para salvar os filhos dos campos de concentração se resumia a um sobradinho comercial de três andares com duas salas, um banheiro e uma escada que levava ao sótão. Anne, convivendo também na clandestinidade com uma segunda família de amigos judeus, escrevia em um diário que o pai lhe dera como presente os conflitos e as paixões vividas em seu confinamento de Amsterdã sem saber ao certo o tamanho da encrenca que fazia de seu País o pior lugar do mundo para se estar em 1944. Depois de receber as coordenadas de um informante de identidade jamais revelada, a polícia alemã invadiu o bunker dos Frank e os encaminhou a campos de concentração com desonras de fugitivos. Anne suportaria apenas um ano mergulhada em depressões e doenças antes de morrer de tifo, aos 15 anos de idade. Seus escritos foram recuperados pela família, lançados em livro em 1947 e logo elevados à categoria de uma das obras mais importantes do século 20. Um tratado da humanidade muito menos datado do que o contexto histórico em que foi escrito pode sugerir.

Em 1958, treze anos depois de sua morte, seu pai, o sobrevivente Otto Frank, adaptou o Diário de Anne Frank para se tornar o livreto de uma cantata que seria composta pelo italiano Leopoldo Gamberini. A obra de aproximadamente 350 páginas foi reduzida para a criação de uma obra que permanecia inédita até hoje, quando mais este silêncio de Anne Frank será quebrado. A partir das 21h, a Cantata de Anne Frank será apresentada no Auditório do Ibirapuera, com entrada franca, a convite do Instituto Vladimir Herzog para lembrar os 75 anos de nascimento do jornalista, morto em 1975 depois de ser torturado pela ditadura. Os concertos se repetem amanhã, também às 21h, e domingo, às 19h.

O maestro brasileiro Martinho Lutero Galati terá em suas mãos uma formação de 180 músicos, entre eles 110 cantores do Coro Luther King, a Orquestra Sinfônica de Campinas e talentos individuais de procedências relevantes ao tema Direitos Humanos, como a soprano Olga Sober, de Sarajevo, e a violoncelista japonesa Yuriko Mikami. A bailarina Clarisse Abujamra irá interpretar uma coreografia de Décio Otero, engajado mentor do Ballet Stagium ao lado de Marika Gidali. Galati esteve com o próprio compositor Gamberini discutindo a execução de sua obra até abril, quando o músico morreu, aos 90 anos, sem ver o resultado final da montagem. Otto Frank faleceu em 1980. "A obra de Anne trata das piores atrocidades da humanidade justamente em uma fase em que se dão as mais belas descobertas da vida. Esse encontro contraditório é fascinante", diz o maestro.

A cantata de uma hora e quinze minutos foi construída sobre três personagens a representar a curta vida de Anne Frank: a criança será mostrada pelo violoncelo de Yuriko, a adolescente estará na voz da soprano Olga Sober e a mulher madura que não teve tempo de existir será representada pela bailarina Clarisse Abujamra. "É uma cantata tão atual como é atual a dignidade humana. Está ligada diretamente às questões do Holocausto, mas pode ser vista também na morte injusta de Vladimir Herzog", diz Galati. Ou, na doçura das palavras de Anne: "Nem tudo está perdido quando ainda é possível amar."

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