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Cantando na areia

Com a indústria de discos fazendo água por todos os sulcos, para astros pop como Beyoncé, Lionel Richie e 50 Cent os convites de ditadores africanos para fazer shows foram um presente de Euterpe

SÉRGIO AUGUSTO,

05 de março de 2011 | 10h24

 

Antes elas se apresentavam em Las Vegas sem se incomodar com o jamegão de um mafioso no contracheque. Depois passaram a gravar comerciais no exterior, promovendo até produtos de que nunca quatro anos, descobriram um novo mercado de trabalho: shows particulares para ditadores africanos e sua parentela. Com a indústria de discos fazendo água por todos os sulcos, os tiranos foram recebidos como um presente de Euterpe. Só a família Kadafi contratou os serviços de meia dúzia de estrelas pop, nos últimos quatro anos.

Gene Kelly cantava na chuva. Beyoncé, Mariah Carey, Nelly Furtado, Lionel Richie e os rappers Usher e 50 Cent foram cantar nas areias da ilha caribenha de St Barts, a soldo dos Kadafi Boys. A opção seria a areia do Saara. Cachês milionários. A gostosona Beyoncé levou US$ 2 milhões para se exibir cinco vezes no réveillon passado. Mariah faturou a metade por quatro números. O WikiLeaks não especificou a soma embolsada pelos rapazes, mas ninharia não foi: 50 Cent, que já dissera a que veio ao trocar o tráfico de drogas pelo show business e gravar um álbum intitulado Get Rich or Die Tryin’ (Fique rico ou morra tentando), só gosta de centavo no nome.

Se a repressão sob a qual vivem as mulheres líbias em algum momento constrangeu Beyoncé, só ela ou seus próximos podem esclarecer. O fato é que, até agora, apenas Nelly Furtado desculpou-se por sua ganância e falta de consciência. “Em 2007, eu recebi US$ 1 milhão do clã dos Kadafis para fazer um show de 45 minutos para convidados num hotel na Itália. Vou doar tudo” - tuitou a cantora luso-canadense, no início da semana. Para que instituição de caridade, não informou.

Também nas encolhas permaneceram a cantora Kesha (contratada pelo tirano Robert Mugabe para animar uma festa anual no Zimbábue) e os rappers Chris Brown (atração no palácio real da Arábia Saudita) e Eminem (principal nome de um espetáculo soi-disant beneficente patrocinado por Asayas Afwerki, aquele que adiou por 40 anos as eleições na Eritreia).

Às cobranças mais frequentes na internet (o que se esperar de celebridades que raciocinam com o bolso e só olham para o próprio umbigo? Como artistas tão ignorantes e alienados poderiam saber do que se passa na África?), acrescento outra: não dá para acreditar que o “rebelde” Eminem desconhecesse o currículo de Afwerki.

Confesso que fiquei mais impressionado com as preferências musicais dos ditadores (lorde Acton diria que até o gosto musical o poder absoluto corrompe absolutamente) do que com o comportamento insensato dos artistas citados, de resto, uma tradição no show business. Maurice Chevalier, Jean Cocteau e Sacha Guitry se esbaldaram com os nazistas, Elis Regina cantou o Virundu para o general Médici. Sim, eram de outro nível os inocentes e os oportunistas de antanho. A indulgência que as estrelas pop, por sua ignorância, talvez mereçam não se aplica aos experts e políticos que, por interesses vários, a maioria inconfessáveis, se aliaram aos sobas de todos os quadrantes da África e neles puseram asas.

Em represália ao atentado a uma discoteca berlinense por terroristas líbios, em 1986, Ronald Reagan oficializou a demonização de Kadafi, tachando-o de bárbaro e inimigo dos Estados Unidos. Em 2008, com outro republicano na Casa Branca, todas as barbaridades cometidas ou estimuladas pelo coronel foram indultadas. Obcecado com a guerra ao terrorismo e de olho gordo no petróleo, Bush, que dois anos antes suspendera o boicote econômico à Líbia, estendeu o tapete vermelho para Kadafi tão logo o ditador prometeu suspender seu programa nuclear. Em questão de horas, US$ 2,5 bilhões em petróleo saíram de Trípoli para os Estados Unidos. Nos meses seguintes, as exportações americanas para a Líbia subiram 419%.

A acochambração com a ditadura de Kadafi foi uma vitória de um poderoso grupo de lobistas a serviço de corporações ligadas ao petróleo (BP, ExxonMobil, Halliburton, Chevron, Conoco, Marathon Oil), à indústria da defesa (Raytheon, Northrop Grumman) e a multinacionais do porte da Dow Chemical and Fluor, que só tinham a perder com a Líbia na lista negra. Todas elas faturaram horrores no feudo de Kadafi, nos últimos três anos.

Já devíamos estar acostumados à prevalência da “moral do lucro”, mas porque somos bobos e românticos seu triunfo sempre nos surpreende e aturde. E o que dizer da ainda mais perturbadora falta de solidariedade de negros americanos não ligados ao show business com seus irmãos africanos? Sei de pelo menos quatro renomados afro-americanos que, nas últimas quatro décadas, comportaram-se de forma deplorável no trato com ditadores africanos.

O reverendo Jesse Jackson visitou a Nigéria em 1983 e salpicou de lantejoulas o general de plantão, Ibrahim Babangida. O cleptocrata nigeriano suprimira a oposição, fechara jornais independentes e transformara o país num entreposto de drogas, e o reverendo só se referindo a ele como “um dos maiores líderes do mundo moderno”. Claro que havia mufunfa na lambição: além das mordomias da viagem, Jackson ganhou algumas centenas de milhares de petrodólares para seus “programas sociais”.

Na década seguinte, a senadora negra Carol Moseley Braun fez o mesmo com o general da vez, Sani Abacha, bem mais feroz que o anterior. Depois, arrependeu-se e pediu desculpas, contrição que não se deve esperar do guia espiritual da Nação do Islã, o inacreditável Louis Farrakhan, amigo de todos os sacripantas africanos, em especial de Kadafi, que já o mimoseou com um prêmio no valor de US$ 250 mil, nem de Roy Innis, velho líder do Congresso Pela Igualdade Racial, comensal e promoter do finado canibal ugandense Idi Amin. Innis é um salafrário de primeira ordem. Com uma agravante: não tem as pernas da Beyoncé.

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