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Cansaço

Aparentemente, não era depressão. É a vida como está. O normal agora é não estar normal

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2020 | 03h00

Estive muito irritado por esses dias. Sei que não é o caso das pessoas equilibradas e serenas que nos leem, mas eu me peguei impaciente, pouco tolerante, incomodado por coisas com as quais normalmente lido bem. E cansaço. Bastante – parecia faltar energia.

Pronto, pensei. Deprimi. Demorou, mas chegou. Assim como assistimos tensos ao crescimento das contaminações pelo SARS-Cov-2, temerosos de que a covid-19 finalmente nos alcance, eu venho observando com receio o avanço da onda de adoecimento emocional que adentra silenciosamente pelas casas, voando abaixo do radar das manchetes e sem despertar a atenção das autoridades de saúde. O mesmo equilíbrio entre a certeza fatalista de que o coronavírus uma hora vai me alcançar e a esperança ingênua de que sou inatingível me assombra com relação à ansiedade e à depressão.

Ponderei que talvez fosse cansaço. Uma coisa que não fiz direito nos últimos meses, ao contrário do que recomendo desde o primeiro artigo sobre essa quarentena, foi criar uma rotina adequada. Consegui manter as atividades – obrigações, lazer e até atividade física –, mas não num ritmo estável e previsível o suficiente para que meu cérebro entrasse no modo automático da rotina, que tanta energia nos poupa. Sem isso, demandei muito da atenção, planejamento, tomada de decisão, o tempo todo tendo que ativamente raciocinar e decidir sobre o momento seguinte. E, como o cérebro consome sozinho um quinto de toda nossa energia, mantê-lo assim ativo é um meio certeiro para drená-la e levar a um estado de cansaço.

Resolvi me desconectar por uns dias. Não tanto desligando o Wi-Fi; foi mais uma desconexão mental. Deixei tudo pronto para os compromissos mais próximos, para não precisar pensar neles pelos dias seguintes. Adiantei os vídeos que precisaria gravar. Bloqueei a agenda do consultório. E voltei a assistir a seriados de comédia que sabia me fazerem rir. Um atrás do outro. Mesmo se não estivesse com tanta vontade no início, conforme as risadas iam se sucedendo, a empolgação crescia.

Só de aliviar a pressão do futuro já me senti melhor. Sem precisar monitorar mentalmente de forma constante os dias seguintes, a vida ficou mais leve. O consumo de um conteúdo despretensioso e bem-humorado ajudou tanto a gastar menos energia como experimentar emoções mais agradáveis. E o círculo virtuoso dos relacionamentos então se colocou em marcha: tratando melhor as pessoas à minha volta, fui cercado de afetos mais positivos. E, com tudo isso em poucos dias, senti uma enorme diferença. A paciência praticamente voltou ao normal. O ânimo voltou a subir. A energia reapareceu, trazendo consigo a motivação.

Não era depressão, aparentemente. É vida como está. Tanto que, preciso confessar, mesmo tendo melhorando muito, não sinto que estou no meu normal.

Mas quem está, afinal? Como digo também desde as minhas primeiras palestras e entrevistas sobre a pandemia, o normal agora é não estar normal. Incerteza, preocupação, perdas – não se vivenciam tantas emoções negativas ao mesmo tempo sem que haja consequências. Que, como no meu caso, em sua maioria felizmente não são patológicas e podem melhorar se agirmos a tempo. 

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