Cannes sob o reinado da palavra e do olhar

'Winter Sleep', de Ceylan, e 'The Captives', de Egoyan, são exibidos na 67ª edição

LUIZ CARLOS MERTEN, ENVIADO ESPECIAL / CANNES, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2014 | 02h08

Havia grande expectativa pelo novo filme do turco Nuri Bilge Ceylan, e ele não decepcionou. Winter Sleep, Sono de Inverno, passou à tarde. A sessão oficial foi também a de imprensa. São três horas de uma narrativa densa, mas também desconcertante. Para contar a história de um ator, Ceylan faz largo uso da palavra. Ela reina soberana no filme. Um diálogo entre um casal de irmãos dura cerca de 15 minutos, filmado em campo-contracampo. Outro, entre marido e mulher, dura mais de dez. Tão importante quanto aquilo que as pessoas dizem, é o que guardam para elas mesmas. Winter Sleep é feito de pausas, silêncios.

É uma livre adaptação de Chekhov. O protagonista, ex-ator, pretende escrever um livro sobre a história do teatro na Turquia. Possui um hotel, herdou propriedades do pai. Vive com a mulher mais jovem e a irmã. Ela reprova nele o diletantismo. Talvez para se compensar do palco, que abandonou, nosso homem escreve sobre tudo num jornal de província. A irmã o acusa de ser superficial, escavando levemente sobre temas que exigiriam profundidade. E ela também diz que, talvez por uma expectativa muito alta ter sido colocada sobre seus ombros, o irmão decepcionou a todos que esperavam muito dele.

Ele é, até certo ponto, um cínico. Seu capataz diz que ele é mole, num conflito com arrendatários. A mulher quer mudar o mundo e forma grupo solidário. Todo mundo se acusa, suspeita. Há uma metáfora envolvendo um cavalo selvagem que foi aprisionado, para ser domesticado, e que é devolvido à natureza. Tudo evolui assim, entre falas intermináveis sobre o estado do mundo e a angústia de gente incapaz de resolver seus problemas. Em vez de Sono de Inverno, poderia se chamar Luz de Inverno, título que já pertence a um filme de Ingmar Bergman. A fala do casal é dilacerante. Ela o acusa de sufocá-la, ele retruca que lhe deu toda liberdade, e a mulher nunca soube o que fazer dela. E tudo se passa em campos de neve e interiores gelados. A luz é a meta de Ceylan, mas seu tema é a palavra, que gera mal-entendidos, mais do que esclarece.

O ator vive falando de consciência, moral. O professor do lugarejo cita Shakespeare - a consciência é refúgio dos fracos, que não querem ou têm medo de agir. O ator tem a última palavra - uma saída de cena grandiosa, como no teatro. Pura representação. Já era o tema de Grace: A Princesa de Mônaco, de Olivier Dahan. Vivemos num mundo de aparência, em que todo mundo representa. Antes de Ceylan, houve ontem Atom Egoyan. O autor canadense de ascendência armênia mostrou The Captives. Uma garota é sequestrada quase sob os olhos do pai. A mãe o acusa de negligência, ele nunca cessa de procurar pela menina, que cresceu e agora é usada, em seu cativeiro, para atrair jovens em atividades escusas na internet. Ryan Reynolds faz o pai, Rosario Dawson é a policial que acompanha o caso ao longo dos anos.

Na coletiva, Atom Egoyan disse que se inspirou na realidade e que a internet, se tem um lado libertário, também pode abrigar vícios, sordidez. De cara, um novo policial que vem trabalhar com a bela Rosario - ela é a segunda cativa da história, sequestrada pelos criminosos -, desvia o rosto diante de imagens brutais que circulam na internet, envolvendo variadas formas de abuso infantil. É um mundo perverso, Rosario diz que ele tem de olhar, é sua função - é nosso dever, de cidadãos, olhar. Um filme sobre a palavra e outro sobre o olhar, sobre a parafernália de aparelhos de vigilância que não tornam o mundo mais seguro e viram ferramentas (também) do crime.

Entre um e outro, entre Egoyan e Ceylan, o 67.º Festival de Cannes abriu um espaço para a fantasia e mostrou Como Treinar Seu Dragão 2, de Dean Deblois. Vieram o diretor e os dubladores - Cate Blanchett, Kit Harrington, Djimon Hounsou, etc. Já dá para ouvir os protestos dos que acham que um grande festival como Cannes não deveria abrigar esse tipo de programa. Mas é justamente por ser Cannes, o maior evento de cinema do mundo, que o festival acolhe Ceylan, Egoyan e Dean Deblois. O filme é muito bom e vai encantar o público. Não é de hoje que a animação faz parte do território autoral do cinema.

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