Yves Herman/ Reuters
Yves Herman/ Reuters

Cannes escolhe Safo

Festival premia filme de amor lésbico em meio a movimento contra casamento gay

LUIZ CARLOS MERTEN - ENVIADO ESPECIAL, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2013 | 02h08

CANNES - Na coletiva de apresentação do júri, seu presidente, o cineasta norte-americano Steven Spielberg, disse que Cannes é o lugar perfeito para se celebrar o cinema do mundo. Ontem, após a premiação, ele reafirmou o que havia dito antes. Spielberg e seus jurados podem ter feito algumas escolhas discutíveis, ou se esquecido de filmes importantes, mas foram corajosos, ousados - e no geral fizeram a coisa certa.

A Palma de Ouro para A Vida de Adèle, do tunisiano Abdellatif Kechiche, não apenas premiou o indiscutível melhor filme da seleção oficial - referendado pelo prêmio da crítica, no sábado -, como se estendeu a duas atrizes, Adèle Axerchopoulos e Lea Seydoux, que receberam diplomas e subiram ao palco com o diretor.

Monsieur le president (Spielberg) justificou a tríplice escolha. "A colaboração entre o diretor e suas atrizes é tão intensa e radical que só se pode pensar nesse filme como uma coisa orgânica. Se a escolha do elenco fosse apenas 3% errada, A Vida de Adèle não teria causado a intensa emoção que provocou."

O filme conta a historia da descoberta da homossexualidade por uma garota, que vive uma forte relação com outra mulher. Adèle Axerchopoulos e Lea Seydoux têm cenas íntimas que beiram o sexo explícito. A Palma de Ouro consagra um filme e um tema que viraram tabu na Franca.

Em todo o país ocorrem manifestações contra o casamento gay. Seria o prêmio político, podendo ser considerado uma afirmação do júri em defesa da diversidade?

"Em primeiro lugar, elas não chegam a se casar formalmente, mas a verdade é que essa discussão de gênero nunca se impôs. A Vida de Adèle conta uma belíssima história de amor, e foi isso que nos seduziu", afirmou Spielberg.

"Logo no começo há uma referência a Marivaux, e esse autor francês é conhecido e apreciado como um grande analista dos sentimentos humanos. São eles que estão em discussão, mais que a normalidade que muita gente evoca para ser contra o casamento entre iguais", acrescentou o ator Daniel Auteuil, outro jurado.

O diretor romeno Cristian Mungiu trouxe outro elemento para a discussão: "A história é muito forte, muito bem contada e o que nos impressionou foi também, ou principalmente, o aspecto cinematográfico de A Vida de Adèle. O diretor arrisca-se. Forçou-nos a correr o risco, arriscar com ele." O júri deu seu grande prêmio para Inside Llewin Davis, dos irmãos Coen. Ethan e Joel viraram ícones em Cannes e é simplesmente inimaginável pensar que eles possam mostrar um filme aqui e sair sem prêmios.

Para o gosto do repórter, o Grand Prix teria sido melhor atribuído ao italiano Paolo Sorrentino, que não ganhou prêmio nenhum por seu deslumbrante La Grande Bellezza. Sem se referir a Sorrentino, Spielberg disse que o júri apreciou muitos outros filmes que gostaria de ter premiado. Mas até o prêmio para os Coen fez parte do brilho da noite.

A apresentadora Audrey Tautou, a Amelie Poulain, pediu atenção para as imagens de um filme mítico. No telão, Kim Novak avançou para James Stewart ao som daquela trilha, em Um Corpo Que Cai, de Alfred Hitchcock. A atriz veio a Cannes prestigiar a versão restaurada do clássico e entregar o Grand Prix. O ator Oscar Isaac, que recebeu o prêmio em nome dos Coen, não deixou por menos: "Que honra!" A sala veio abaixo - pelos Coen, e por Kim.

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