Cannes entra na reta final

Expectativa gira em torno dos novos longas de Sergei Loznitsa e Cronenberg

LUIZ CARLOS MERTEN , ENVIADO ESPECIAL / CANNES, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2012 | 03h12

E o 65.º festival vai chegando ao fim. Hoje e amanhã, serão exibidos os últimos filmes concorrentes, incluindo os de Sergei Loznitsa e David Cronenberg, os mais esperados pelos cinéfilos. No domingo, haverá a entrega da Palma de Ouro. Ainda é cedo para arriscar previsões, mas pela quantidade de estrelas nos quadros de cotações de jornais e revistas, há um clima de "já ganhou" para o Amour, de Michael Haneke. Há coisas melhores, os filmes de Christian Mungiu, de Walter Salles. On the Road teve cotações melhores em Screen e Variety do que em Le Film Français. Cahiers du Cinéma deu uma mísera estrela para o filme contra a Palma de Ouro para o Holy Motors, de Leos Carax. Mas Jerry Cimino, considerado a maior autoridade beat do mundo - ele dirige o Beat Museum em Los Angeles -, cobriu o filme de elogios, numa exibição realizada nos EUA, simultaneamente com a do festival. Ele sabe.

A atração da manhã de ontem foi o novo longa de Lee Daniels, o diretor de Precious. Chama-se The Paperboy e é um thriller dos Everglades, a região pantanosa da Flórida. Narrado em flash-back, mostra a enquete em torno de um livro que, anos antes, virou um clássico do novo jornalismo, investigando as circunstâncias de um crime. A temperatura é quente, o racismo fornece o texto e o subtexto, mas Daniels está mais interessado em outras coisas, como, por exemplo, filmar Nicole Kidman num papel de vagabunda e Zac Effron no do garoto que morre de desejo por ela. Precious já não valia grande coisa, mas este talvez valha menos ainda. A grande surpresa é Matthew McConaughey num papel de gay hardcore (mas, calma, nada é explicitado, ao contrário de On the Road, onde Steve Buscemi faz outro gay, passivo, numa cena, digamos, bem gráfica).

O festival tem ousado bastante nas cenas de sexo. Na quarta à noite, Carlos Reygadas exibiu seu longa concorrente, Post Tenebras Lux. O autor mexicano é um dos queridinhos de Thierry Frémaux, que selecionou todos os seus filmes, até hoje, para a competição. Reygadas foi vaiado na sessão de imprensa. Será por isso que Frémaux o acompanhou na coletiva, de certo para ver como seria recebido? Essa foi uma reverência concedida, até aqui, somente a Alain Resnais, o mais velho dos artistas da seleção oficial, e a Bernardo Bertolucci, mas ele sempre merece atenção especial, por estar confinado à cadeira de rodas.

Homens nus não são necessariamente uma novidade no cinema de Reygadas, que aqui coloca seus personagens numa sauna, com direito a sexo aleatório. Há um problema da luz no cinema do diretor. Em Luz Silenciosa, era uma luz redentora. E aqui? A história, se é que se pode falar em história, é sobre um casal e seus filhos num meio que lhes é estranho. De forma meio aleatória, o filme trata de um sujeito que despedaça árvores com serra elétrica como mataria pessoas, a serviço do patrão, e de um jogo de rúgbi entre equipes concorrentes de garotos. A luz é bonita, algumas cenas são impactantes, mas o próprio Reygadas, no debate, foi incapaz de articular um discurso coerente sobre o próprio trabalho. Muito esquisito.

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