Cangaceiro, um assunto delicado

Mais dois livros sérios devolvem, ao cangaço, lugar de honra na academia

Moacir Assunção, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2010 | 00h00

 

 
Autor: Arthur Aymoré

Editora: Jacintha Editores

(192 páginas)

Preço: R$36

 

O cangaço, um dos mais importantes fenômenos sociais brasileiros, mais uma vez volta a chamar a atenção da historiografia nacional. Os livros Os Cangaceiros, Ensaio de Interpretação Histórica, de autoria do historiador Luiz Bernardo Pericás, e O Outro Olho de Lampião, do jornalista Artur Aymoré, cada um em uma perspectiva diferente, jogam mais luzes sobre este tema, quase sempre tratado com algum menosprezo pela academia.

 

O livro de Pericás, por exemplo, deve se tornar clássico do assunto em pouco tempo. Em seu trabalho, construído entre viagens a vários Estados nordestinos, um ano de pesquisas na Universidade do Texas, nos EUA, considerado um dos maiores centros de estudos sobre o Brasil no país, e leitura de toda a principal bibliografia sobre o assunto, Pericás disseca, com grande rigor histórico, a trajetória de personagens como os chefes do cangaço Lampião, Antonio Silvino, Sinhô Pereira e Corisco.

 

Ao contrário da maior parte da bibliografia existente, baseada em um caráter basicamente narrativo e com linguagem literária, ele utiliza documentação nova e faz a análise criteriosa, com rigor científico de historiador atento a sua época, do assunto.

 

Notícias. Na obra de Aymoré, jornalista com passagem por vários veículos, entre os quais o Jornal do Brasil e a Última Hora, o enfoque é outro: ele analisa no trabalho, fruto do seu mestrado em Comunicação Social na Universidade de São Paulo (USP), as notícias sobre Lampião publicadas em jornais nordestinos e do Sul/Sudeste, inclusive o Estado. A visão é visceralmente diversa: nos veículos nordestinos, Virgulino Ferreira é retratado como a "fera do Sertão", enquanto nos de São Paulo e Rio, os bandoleiros eram vistos, majoritariamente, como vítimas de um sistema social injusto, baseado no poder absoluto do coronel.

 

Aliás, neste aspecto reside a principal discrepância entre as duas obras: escritor de esquerda, biógrafo de Che Guevara e de José Carlos Mariátegui, pensador peruano considerado o "pai" do marxismo latino-americano, Pericás, que dedica um capítulo de sua obra à análise da relação entre Lampião e os comunistas brasileiros, vê como "ingenuidade" considerar o bandoleiro nordestino e seus sequazes como bandidos sociais, a exemplo do defendido pelo historiador Eric Hobsbawn, cujo livro Bandidos acaba de ser republicado.

 

 

 
Autor: Luiz Bernardo Pericás

Editora: Boitempo

(316 páginas)

Preço: R$ 54

"A população civil é que estava no meio do fogo cruzado entre os cangaceiros e as volantes (grupos móveis de policiais que perseguiam os bandidos). Quando poderia ter se juntado à luta contra o sistema social injusto, Lampião escolheu enfrentar Luiz Carlos Prestes que, realmente, combatia o regime", afirma. Ele refere-se ao famoso episódio de 1926, quando o bandoleiro foi armado pelo governo para enfrentar a Coluna Prestes, que percorria o Nordeste no período, ganhando a patente de capitão das chamadas Forças Patrióticas, na verdade um ajuntamento de jagunços e bandidos que combateu os militares de Prestes.

 

Vítimas. Aymoré, por sua vez, tem uma visão um pouco mais romântica do cangaceiro. Em sua visão, Lampião e seus bandoleiros eram, realmente, bandidos sociais, vítimas da opressão contra a qual teriam lutado. "Lampião protagonizou a mais longa e épica de todas as revoltas sangrentas já surgidas no Brasil. Considerado bandido pela imprensa brasileira, lutava por justiça social e contra um regime de opressão", define logo na introdução. Na verdade, o bandoleiro aliou-se, sempre que pôde, a alguns dos mais reacionários coronéis nordestinos. O ensaio de Pericás está fadado a ser comparado, dentro do tema, ao clássico Guerreiros do Sol, violência e banditismo no Nordeste do Brasil, do sociólogo e historiador Frederico Pernambucano de Mello, considerado o mais sofisticado estudo sobre a violência no chamada Brasil profundo nos últimos anos.

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