Leonardo Soares/AE
Leonardo Soares/AE

Canções para voos noturnos

Cida Moreira grava DVD de A Dama Indigna recebendo Thiago Pethit como convidado

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2011 | 00h00

Para realizar o show dos mais intensos e arrebatadores vistos este ano em São Paulo, A Dama Indigna, Cida Moreira não precisou mais do que seu piano, sua imensa voz e um repertório impecável de autores com os quais se identifica pela contundência de uma poesia noturna, de metáfora mítica e teatral, como mostrou em fevereiro no Auditório Ibirapuera. No mesmo formato e com as mesmas canções profundas, ela grava o DVD desse show amanhã no Teatro Fecap, tendo agora o cantor Thiago Pethit como convidado.

É provável que eles cantem juntos Surabaya Johnny (Brecht/Weill), um dos clássicos do repertório de Cida desde o fim da década de 1970, quando ela já deitava e rolava nessa sedutora atmosfera fumacenta de cabaré, que Pethit respira, ambos curtidos em experiências teatrais. O dueto vai entrar como faixa-bônus do DVD. "Essa canção faz parte da minha vida e Thiago começou a cantá-la por minha causa. E acho que ele canta muito bem", diz a cantora, que participou recentemente de um belo show de Pethit em Belo Horizonte, encerrando o festival Conexão Vivo.

Para o cantor foi uma grande conquista ter Cida a seu lado e ela tem segundas intenções com ele. "Pretendo fazer algo mais amplo com várias pessoas, como Pethit, Hélio Flanders. É um imenso show com esses garotos que estão fazendo música hoje com grande competência, com estilo muito próprio e cheios de jovialidade, não só na música, mas na atitude artística. Estou buscando muito isso para os próximos anos da minha vida profissional", diz Cida. "Quero fazer esse show com eles cantando Tom Waits, Leonard Cohen, Lou Reed, só essa gente que faz música sombria, maldita (no melhor sentido) e totalmente pop."

Da vanguarda ao Vanguart. Compositor e cantor, Flanders seria o outro convidado da cantora amanhã, mas ele estará em Palmas com o Vanguart. Cida é uma das quatro mulheres que posaram para a capa do aguardado segundo álbum de estúdio da banda, que será lançado virtualmente no dia 16. Flanders também deixou sua marca num ótimo dueto com Marcia Castro, cantando 29 Beijos (Moraes/Galvão) no segundo álbum da cantora, De Pés no Chão, outro prestes a ser lançado.

Cida está em fase de mudanças pessoais, o que talvez não venha ao caso. "Mas isso se reflete na forma como me relaciono com minha arte. E nessa questão, quero conscientemente ficar sempre descolada de coisas que são esperadas de uma geração ou que são grudadas em certas atitudes." Identificada no imaginário coletivo como uma das expoentes da chamada "vanguarda paulistana", com seus voos noturnos, Cida obviamente sempre foi além do clichê, fiel a si mesma, e hoje diz que abomina a ideia de que sua geração "fez isso e aquilo" e não foi valorizada o suficiente.

"É um discurso que também cai numa atitude artística inclusive em relação a uma coisa que não existe, chamada companheirismo. Estou me afastando muito disso, porque realmente ainda me encanto com tudo", diz. Dentre os que a deixaram encantada ultimamente, estão os citados Pethit e Flanders. "Eles me conquistaram pelo talento deles, pelo descompromisso, no bom sentido, de cada um cantar o que gosta. Não se trata de jogada de marketing, até porque a gente não tem cacife para isso. É uma coisa artística de coração mesmo."

Outra que bateu fundo no coração de Cida, por influência da filha, foi Amy Winehouse, de quem gravou Back to Black no CD A Dama Indigna. Amy junta-se à especial galeria de seus deleites, que tem Jards Macalé, Chico Buarque, Caetano Veloso, Tom Waits, David Bowie, George Gershwin e outros que interpreta nesse show e estão gravados em sua identidade como tatuagem.

Waits, modinha e cinema. Cida também está se preparando para gravar um disco só de Tom Waits, produzido por Marcelo Fróes, da Discobertas, juntando o repertório de dois shows que fez com suas músicas, como aquele memorável Canções para Cortar os Pulsos, de 2007, ao lado de André Frateschi. Outro projeto para 2012 é um álbum brasileiro só de modinhas imperiais recolhidas por Mário de Andrade.

Cida também está de volta ao cinema. Ela será protagonista de um dos três episódios do longa-metragem O Que Se Move, de Caetano Gotardo. Interpretando a mãe de um pedófilo suicida de 17 anos, ela começa a filmar sua parte em Paulínia a partir do dia 15. Além do DVD, a Lua Music vai reeditar Agenor, seu comovente tributo a Cartola, que está esgotado.

CIDA MOREIRA

Teatro Fecap. Avenida Liberdade, 532, tel. 4003-1212. Amanhã, 21 horas. R$ 50 e R$ 25 (www.ingressorapido.com.br).

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.