Canção Noturna

Aos 85 anos, Pierre Boulez recupera em disco obras de Szymanowski

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

02 de janeiro de 2011 | 00h00

Há momentos-chave no itinerário dos compositores. Às vezes, no entanto, as obras decisivas se distribuem por várias fases criativas - e aí estamos diante dos gênios acabados, como Beethoven. Mas, no geral, estes lances iluminados costumam cair como um raio sobre o compositor que, em seguida, retorna a criações mais previsíveis.

O polonês Karol Szymanowski (1882-1937) é pouco conhecido hoje em dia. Talvez porque sua criatividade se tenha iluminado de modo fulgurante apenas em um ano específico, 1916. É claro que estou fazendo uma redução esquemática de seu itinerário. Mas o raciocínio serve para entendermos como Pierre Boulez opera cirurgicamente ao pinçar suas novas aventuras como regente. Vejam bem: aos 85 anos, Boulez ainda "redescobre" obras-primas escondidas embaixo do tapete da história da música. Ele mantém um rigor sem paralelo na escolha do restrito repertório que rege e leva ao disco. A lista privilegia a revolucionária obra de arte total de Wagner, passa pela trinca de Viena Schoenberg-Webern-Berg e seu padrinho Gustav Mahler, o russo Stravinsky, o húngaro Bela Bartók e os franceses Ravel e Debussy, além de seus contemporâneos como Stockhausen e raríssimos outros eleitos.

Pois Boulez acaba de acrescentar Szymanowski a seu portfólio. Gravou, em concertos com a Filarmônica de Viena em junho de 2009 e junho de 2010 o Concerto nº 1 para Violino Op. 35 e a Sinfonia nº 3 - Canção da Noite. Ambas estão entre as mais conhecidas deste compositor pouco executado e menos ainda gravado. Mas Boulez foi na veia. Naquele ano de 1916, em plena Primeira Guerra Mundial, Szymanowski escreveu, num só jato criativo, estas duas obras estupendas, verdadeiros elos de ligação entre Debussy e Messiaen. "Depois disso, virou neoclássico, e por isso não me interessa mais", diz Boulez em depoimento no CD-bônus.

Para começar, o concerto não soa como concerto, nem a sinfonia como sinfonia. Não há a oposição temática que tradicionalmente dramatiza o discurso musical, ele se parece mais com uma balada. Segundo Didier van Moere no mais recente estudo sobre o compositor (Ed. Fayard, Paris, 2008), "o violino é a voz do homem - ou a do poeta - e a orquestra é a voz do mundo, e a relação entre eles é de troca, ou fusão, nunca de conflito". Descarta-se a virtuosidade tão entranhada no gênero. Ele mesmo esclareceu que "o concerto é uma obra sinfônica com violino solo", inspirado no poema A Noite de Maio, da coletânea No Crepúsculo das Estrelas, do poeta polonês Micinski.

Os dezenove compassos iniciais do Vivace assai são uma acabada amostra de como é complexo fundir o impressionismo musical com o universo grandioso das sinfonias de Mahler (Szymanowski viveu em Viena em 1912-1914, pouco depois da morte de Mahler). Pois estes 19 compassos reproduzem uma natureza exuberante, com murmúrios dos violinos tremolando sul ponticello (próximo ao cavalete), violas flautando (golpe de arco com pouca pressão e muita velocidade da crina sobre a corda, produzindo sonoridade parecida com a da flauta) e glissando (deslizando o dedo sobre a corda). Três escalas diferentes convivem: o piano alterna acordes nas teclas pretas e brancas enquanto a escala pentatônica surge nos oboés, cordas e piano e convive com os tons inteiros na clarineta - tudo regado a acordes perfeitos na mão esquerda do piano.

Já deu para entender por que Boulez seduziu-se com o concerto. E também com a sinfonia, ainda mais mahleriana em espírito, para tenor, coro misto e uma formidavelmente grande orquestra. É o momento em que Szymanowski pratica um cromatismo muito complexo. A título de exemplo, na sinfonia, ele escreve "divisi" (partes separadas) para até vinte violinos (entre primeiros e segundos, são 30, além das 12 violas, 10 violoncelos e 8 contrabaixos). Pratica uma espécie de "impressionismo estático", pois constrói pianíssimos quase impalpáveis, transformações quase imperceptíveis, efeitos de uma modernidade espantosa que ainda hoje provoca admiração em que a ouve pela primeira vez. Apesar destas "modernidades", a sinfonia em três movimentos - onde o tenor canta esparsamente no primeiro e no terceiro, sendo que o segundo funciona como scherzo - conclui com três acordes perfeitos em dó maior, genialmente manipulados: sob a imobilidade dos acordes, murmuram arpejos combinados com glissandos de harmônicos das violas e celos, tudo em pianíssimo.

Ou seja, a este tratamento complexo das cordas une-se o uso da escala em tons inteiros e um cromatismo saturado que se contaminam mutuamente. É isso que encantou Boulez e o leva a interpretações de um refinamento inacreditável. A sinfonia usa versos de Rumi, pai da mística sufi que viveu no século 13, para quem a união com a divindade passa pela contemplação e abstinência, algo como um panteísmo sensual.

Fantástico. No final da partitura, Szymanowski escreveu: "Como músico não consigo imaginar como isso soará na orquestra". Mas acrescentou: "Estou muito satisfeito: uma vez mais, novas e diferentes nuances, mas também um certo retorno ao antigo. No conjunto, um caráter fantástico e surpreendente que jamais se ouviu antes".

Há gravações anteriores da sinfonia, sobretudo por orquestras polonesas. Nada, porém, que se compare à precisão das célebres cordas de Viena, ou ao brilho de suas madeiras e metais. Muito menos à sofisticação do Coro da Sociedade dos Amigos da Música de Viena, tradicional parceiro da filarmônica. Brilha demais também o tenor Steve Davislim, dono de um timbre luminoso. No concerto, é forte a concorrência: Thomas Zehetmair com Simon Rattle e a Orquestra de Birmingham, em registro de 1996. Pois Christian Tetzlaff é menos voluntarioso que Zehetmair, entende que se trata de sinfonia com violino solista e não concerto. E Birmingham não é páreo para Viena.

O único detalhe negativo é o truque da Deutsche Grammophon para cobrar mais caro: além de o CD não chegar a 50 minutos de duração, há um CD-bônus com um depoimento de Boulez em francês, alemão e inglês. Por isso o CD está sendo vendido a US$ 25 na internet e a inacreditáveis R$ 100 (ou US$ 60) em São Paulo.

SONG OF THE NIGHT

Pierre Boulez

Deutsche Grammophon

R$ 100

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