Canção e revolução

Nas barricadas de Maio de 2011, Manu Chao e Macaco cantam, e até Gaga toca

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2011 | 00h00

Há um cheiro de rebelião no ar. Uma revolta com sabor juvenil se espalha pelo mundo como um vírus, sem líderes, sem vínculos políticos, avessa a clichês e a conchavos, clamando por mudança. As novas forças se alimentam de uma certa alergia à intolerância e à falta de resposta da política convencional para as aspirações geracionais. Os primeiros a sentir sua pegada foram os anciens régimes do Oriente Médio, do Cairo a Jerusalém, de Damasco a Teerã, de Riad (Arábia Saudita) a Sanaa (Iêmen).

Nesse momento, essa força toma as praças das principais cidades da Espanha, mas está presente também em 700 outros lugares do mundo - incluindo a Marcha da Liberdade, em São Paulo, e a Praça de Maio, em Buenos Aires.

Ao longo da história, revoltas protagonizadas por jovens também carregavam no seu bojo mudanças agudas na sensibilidade de uma época. Por exemplo: quase todas tiveram grandes trilhas sonoras. Para as revoltas estudantis de Maio de 1968, em Paris, Os Beatles fizeram Revolution (Lennon/McCartney) e os Stones compuseram Street Fighting Man. A música dos Beatles é um tanto antirrevolucionária, na verdade, duvidando da sinceridade dos atos de rua, mas é em si um libelo. A dos Stones, contida no álbum Beggars Banquet (1968), é pau puro: ""Cause summer"s here and the time is right for fighting in the street, boy!" (Porque o verão taí e é a hora certa de lutar na rua, mano!).

Com os rockstars planetários de hoje em dia ocupados em amealhar milhões para pagar pensões de casamentos fracassados, a música independente parece a mais indicada para ocupar esse espaço simbólico da nova era revolucionária. Diversos nomes entraram nas seleções do dia a dia dos embates: Gogol Bordello (60 Revolutions), Rage Against the Machine (Killing in the Name), Muse (Uprising), Marc Bolan and T-Rex (Children of the Revolution). E, anteontem, o Maio de 2011 recebeu em Barcelona um dos seus partidários mais ferrenhos, o franco-espanhol Manu Chao.

Manu Chao cantou na Praça de Catalunya para mostrar seu apoio "de coração" aos acampados. O cantor, que reside em Barcelona, passa horas na praça com os manifestantes e tocou alguns dos seus hinos, como Rumba de Barcelona, acompanhado pelo La Troba Kung-Fú. Umas 200 pessoas viram o concerto. "A resignação é um suicídio permanente", diz o manifesto de Manu Chao, que apregoa a derrubada das fronteiras e um poder popular no mundo todo.

"Acabaram-se os rótulos. Somos de uma geração que coleciona discos de vinil e escuta música no iPhone; vemos filmes no iPad, porém nos emociona a tela grande do cinema; lemos livros e gibis no papel e também nos comunicamos pelo Twitter, pelo Facebook e o que se puder inventar. Todos os canais, para mim, são válidos, mas em minha opinião a força, la chicha, o que perdurará no tempo, são as canções", disse o espanhol Dani Macaco, da banda Macaco, ao receber o Prêmio da Música como artista pop. Macaco é autor de uma das canções que, tocadas ao violão, embalam as noites da Plaza Catalunya, em Barcelona, ou da Puerta del Sol, em Madri: La Rebelión (letra ao lado).

Nos anos 60, Bob Dylan, Joan Baez, Cat Stevens e outros dominaram a arte da canção de protesto. Um passeio pelas redes sociais mostra que as novas barricadas de Maio de 2011 são ecléticas: admitem nas barracas até a hedonista Lady Gaga, cuja nova canção, Americano, parece ter caído como uma luva para o atual momento sociopolítico: "Mis canciones son de la revolución, mi corazón me duele por mi generación", diz a letra, em espanhol.

"Não sei se você está por dentro da Revolução Espanhola, mas nós adoraríamos o seu apoio", disse Lady Gaga no Twitter. O lance vem sendo encarado como mais um ato de oportunismo da cantora.

Visualmente, tudo é mais colorido. Uma das fotos que corre a Europa traz um símbolo novo para as barricadas: um garoto espanhol envergando uma máscara do personagem V, da graphic novel (e do filme) V de Vingança. O autor, o britânico David Lloyd, assinaria embaixo. Em 2006, em São Paulo, ele disse ao Estado o seguinte: "Minha história lida com muitos elementos do fascismo. Quando saiu nos Estados Unidos, muitos não gostavam da ideia dizendo que era um filme sobre um terrorista. É uma ridícula simplificação. V era um revolucionário, não um terrorista. E o filme trata mais sobre a liberdade do indivíduo do que de uma situação política. No livro original, depreende-se da história que a única liberdade real é uma posição anarquista. Não é a defesa de um sistema político ou filosófico".

As revoluções mexem com as artes, em lugar de as artes clamarem por revoluções. "A revolução criou uma nova conjuntura em que o povo se sente mais poderoso", disse o arquiteto egípcio Omar Nagati, envolvido num esforço criativo de arquitetos e designers para repaginar a cidade do Cairo, no Egito, palco da rebelião popular que, em fevereiro, derrubou o ditador egípcio Hosni Mubarak, alojado havia 30 anos no poder.

Nagati é um entre os dezenas de arquitetos que, esta semana, participaram de um chamado do Basurama, coletivo de profissionais espanhóis, para apresentar ideias para um novo Cairo, segundo informou a agência Efe. "Queremos intervir com muito pouco pressuposto e com materiais muito simples, para que as pessoas possam replicar com seus próprios meios", disse o arquiteto espanhol Benjamín Castro, do Basurama.

Para Nagati, a chave está em detectar o que é sagrado para os egípcios e aproveitar esses elementos para "gerar exceções" urbanísticas. No Egito, o lugar de onde se irradiou a mudança, a Praça de Tahir, se juntou a esse lote de lugares sagrados - a rebelião que depôs Mubarak terminou com as pessoas pintando e limpando a praça. O professor de urbanismo Mohamed Abu Jir considerou muito interessante "ver como Tahir criou suas próprias regras e como estas começaram a expandir-se por todo o Egito".

BALADAS PARA REVOLTAS

Street Fighting Man

Rolling Stones (1968)

Revolution

Beatles (1968)

The Times They Are A-Changin"

Bob Dylan (1964), libelo contra o racismo e a opressão social

Peace Train

Cat Stevens (1971), clássico da canção de protesto (Stevens cantou ao vivo na entrega do Nobel)

What"s Goin" On

Marvin Gaye (1971)

A Change Is Gonna Come

Sam Cooke (1964), uma celebração dos Movimentos Civis

Revolution Will not be Televised

Gill Scott-Heron, 1970 Revolutionary Mind

Woody Guthrie

Turn! Turn! Turn!

The Byrds (1965)

You Haven"t Done Nothin"

Stevie Wonder (1974), funk com vocais do Jackson 5 e furiosamente destinado a Nixon

Give Peace a Chance

John Lennon (1969)

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