Canção de cisne ao piano

Os últimos e espirituais compassos do magistral Hank Jones

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2012 | 03h07

Três meses antes de morrer, aos 91 anos, em 2010, o pianista Hank Jones deixou um singelo atestado de sua genialidade ao interpretar temas espirituais em parceria com o baixista Charlie Haden. O registro foi feito em apenas dois dias, com o intuito de produzir compactas improvisações sobre o cancioneiro gospel americano (algo que a dupla já havia feito em Steal Away: Spiritual Hymns and Folk Songs, de 1995) O resultado é Come Sunday, uma coda para o impecável legado do mais elegante dos pianistas do pós-bop.

A conversa da dupla, lançada nos EUA esta semana e disponível, até o fechamento desta edição, para streaming gratuito pelo site da rádio pública norte-americana, na série First Listen, é uma aula de sutileza e disciplina. As melodias são interpretadas sem firula, deixando os corais quase intactos. Não há, como é de costume esperar-se de releituras jazzísticas, harmonizações sofisticadas ou deslocamentos melódicos. Tampouco há o uso excessivo de blues - o que é considerável sendo que Jones é um mestre da forma e poderia facilmente colorir os temas assim, transformando-os em canções de catarse na tradição do gospel batista afro-americano.

O intuito é destilar cada hino até que sobrem apenas os elementos mais puros. Até que a luz natural inerente às composições ilumine o diálogo entre baixo e piano. À beira de sua partida para o país desconhecido, a forma de Jones está impecável, como invariavelmente esteve ao longo de uma carreira de mais de 60 anos, em que tocou com todo mundo, de Miles Davis a Ella Fitzgerald.

Seu inconfundível toque pianístico, sutil sem ser frágil, leve sem perder a contundência rítmica, desenha solos elegantes sobre as canções, com o tipo de objetividade que mesmo um mestre desta estirpe só atinge na fase final de sua produção. A abordagem é direta: tema, não mais do que um chorus de solo, e tema novamente. As faixas que duram por volta de três minutos, e na medida em que Come Sunday progride, se estabelece um ritmo constante de improvisos graciosos, que obrigam o ouvinte a prestar atenção. São tão compactos e aos poucos revelam um prazer tão íntimo, que parecem estar vindo de uma caixinha de música: é necessário ouvir o disco microscopicamente, da mesma forma com que se presta atenção às formas e cores de uma borboleta.

O imbatível Charlie Haden é tão responsável por este efeito quanto Hank Jones. A sutileza com que estabelece os andamentos e conduz as canções, como um experiente gondoleiro dando suas cutucadas aqui e acolá às margens de um canal, é impressionante, tanto por ser um gesto de respeito a um mestre mais velho, quanto pela camuflagem sonora que esta sutileza atinge. Seu trabalho aqui é quase imperceptível. Fora quando sai dos bastidores para um solo ou dois, Haden age escondido.

O repertório do disco, com algumas mais conhecidas como Down by the Riverside (gravada por Louis Armstrong) e It Came Upon a Midnight Clear, que teve gravação de Sinatra, é baseado nas mesmas canções que ambos os músicos ouviram em suas infâncias.

Jones, criado em Pontiac, Michigan, em uma família que produziu um trio de gênios que incluiu o arranjador Thad Jones e o baterista Elvin Jones, cantava-as em comunhão na igreja local. Do outro lado da segregação racial norte-americana, Charlie Haden teve contato com o cancioneiro espiritual através de sua família, que trouxe o gospel para as rádios do Iowa. Como apontam os liner notes do disco, escritos pelo professor Maurice Jackson, eram canções entoadas por brancos e negros, uma tradição musical influente em toda a história da música norte-americana, do country de Johnny Cash, ao soul de Aretha Franklin. Entre os destaques de Come Sunday, estão a faixa-título, composta por Duke Ellington e outras, como Blessed Assurance, cujo solo é um gesto de humildade tão singelo, que lágrimas são impossíveis de serem contidas ao ouvi-lo.

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