Canal Brasil homenageia São Paulo

O Canal Brasil homenageia os449 anos de São Paulo, que serão comemorados no sábado, comfestival de longas-metragens de Ugo Giorgetti. Wilson Cunha,diretor do canal (disponível na Net e Sky), vê os filmes deGiorgetti como a "cara da cidade". E são mesmo. O realizadorestá para o cinema paulista, na mesma medida que AdoniranBarbosa para a música. São ambos, duas de suas mais completastraduções (como Rita Lee para Caetano).O Festival Giorgetti começa hoje e vai até sexta-feira(no horário nobre: 21h). Para abrir a homenagem ao cineasta e àcidade que ele ama/odeia (em igual medida), o Canal Brasilmontou programa duplo. Primeiro será exibido o RetratoBrasileiro-Ugo Giorgetti, documentário que narra suatrajetória cinematográfica (excepcionalmente às 20h). Em seguida(21h), virá Boleiros, um de seus filmes mais festejados erepresentativos.Boleiros é jargão esportivo comum entreconnaisseurs. Os pobres mortais dizem jogadores. Outros preferematletas. No filme vemos representantes daquele que é, hoje, omelhor futebol do País (que o digam os santistas Robinho & Diego, a nação corintiana, o São Paulo de Kaká e o São Caetano, deAdhemar). Exceção, claro, para o Palmeiras, que caiu parasegunda divisão, embora continue sendo a paixão máxima do"verdão" Giorgetti.Todos os filmes de Ugo, sem exceção, têm a maiormetrópole da América do Sul como cenário. Foi assim desde osprimeiros curtas (Prédio Martinelli, Rua São Bento,Campos Elísios e Praça da Sé, todos dos anos 70), até ostrabalhos mais recentes, como o documentário Uma OutraCidade e o longa O Príncipe.Uma Outra Cidade mapeia a São Paulo do presente e depassado próximo (anos 60) por intermédio dos poetas ClaudioWiller, Rodrigo de Haro, Jorge Mautner, Antonio Fernando deFranceschi e Roberto Piva. O Príncipe recria ficcionalmenteos sonhos da geração desses mesmos poetas, só que vistos nopesadelo da metrópole de quase 450 anos.O festival do Canal Brasil não inclui OutraCidade, nem O Príncipe, mas, em compensação, serãoapresentados Sábado (1996), Festa (1989), Jogo Duro(1985) e Quebrando a Cara (1977/86).Sábado, como bem observou Ismail Xavier, mantém fértildiálogo com Tudo Bem (1978), de Arnaldo Jabor. Os dois,embalados pelo desejo totalizador de compreender o Brasil, oresumiram dentro de um ambiente fechado. Em Tudo Bem, ospersonagens estão dentro das quatro paredes de um apartamento(país) em reforma. Em Sábado, dentro de prédio decadente.Além do ator fetiche de Giorgetti - o ótimo Otávio Augusto -,Sábado nos diverte com desempenhos singulares de Tom Zé,Décio Pignatari, Gianni Ratto (como um morto azulado) e WandiDoratiotto (em sua homenagem ao genial E. Jannings, de AÚltima Gargalhada, de Murnau).Gramado - Festa, vencedor do Festival de Gramado/89, éoutro filme entre quatro paredes de Giorgetti. O diretorantagoniza os que têm acesso à festa e os que vivem de suasmigalhas, com humor fino e atores exatos em seus papéis (emespecial o louco Antônio Abujamra e o irônico Adriano Stuart).Jogo Duro, que marcou a estréia de Giorgetti nolonga-metragem, forma com Festa e Sábado, uma espécie deTrilogia Paulistana. Numa mansão vazia (em oferta para aluguel)do bairro do Pacaembu, um cara (Jesse James) abriga duassem-teto (mãe e filha adolescente). Da rua, e de olho na casa,um guarda ciumento (Cacá Carvalho, o Macunaíma de Antunes Filho)se envolve com a mulher. Os diálogos são ferinos e a personagemadolescente impressiona por fugir totalmente do figurinotradicional. Aliás, os personagens de Giorgetti não cabem mesmoem fôrmas e clichês.O documentário Quebrando a Cara, sobre o clãJofre/Zumbano (Kid, Eder & Cia.) foi filmado em 16 mm, ao longode nove anos. Seria um curta-metragem, mas a paixão de Ugo peloboxe acabou por levá-lo ao formato longo. E Eder Jofre, campeãomundial em 1960, na categoria peso-galo, tornou-se figuracatalisadora do filme.

Agencia Estado,

20 de janeiro de 2003 | 17h33

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