Canal Brasil faz homenagem a Nelson Rodrigues

Em que poderia se transformar, ao crescer, um menino de 13 anos que vivia com cadáveres no necrotério, assassinos nas casas de família e mórbidas investigações sobre pactos de morte? Nelson Rodrigues cresceu assim, e se transformou no mais original e polêmico dramaturgo brasileiro, levando para seus textos esse universo macabro e recheado de aberrações. Uma biografia acompanhada da exibição dos filmes adaptados da sua obra compõem um festival em homenagem a Nelson Rodrigues, que o Canal Brasil exibe nas próximas quintas-feiras, a partir de amanhã, às 23h30, lembrando os 20 anos da morte do "Anjo Pornográfico". Dramaturgo, romancista e jornalista, Nelson nasceu em Pernambuco em 1912, mas mudou-se ainda criança para o Rio, onde, adolescente, começou a trabalhar nos jornais sensacionalistas de seu pai, Mário Rodrigues. Em 1941, escreveu sua primeira peça, A Mulher Sem Pecado. Quase 60 anos depois, a peça está em cartaz no Rio, em uma montagem de Luiz Arthur Nunes, um dos entrevistados do Retratos Brasileiros Nelson Rodrigues. No especial, uma co-produção com a Workvideo, depoimentos do crítico teatral Sábato Magaldi, do cineasta Neville D´Almeida, dos jornalistas Wilson Figueiredo e Zuenir Ventura, além dos filhos do dramaturgo, Nelsinho e Jofre Rodrigues. Sábato Magaldi, por exemplo, classifica as peças de Nelson em psicológicas (A Mulher Sem Pecado e Vestido de Noiva), mitológicas (Anjo Negro, Álbum de Família) e tragédias cariocas (A Falecida, O Beijo no Asfalto). Contradições - A obra de Nelson recria com crueza um cotidiano pequeno-burguês, transmitindo uma visão de mundo pessimista e desesperada. Contraditório, Nelson dizia-se conservador, mas suas obras beiram a indecência. Afirmava ser reacionário, mas seus textos são revolucionários. Era, principalmente, um descrente, que via - e mostrava - uma sociedade podre, habitada por neuróticos e tarados. Esse material explosivo foi amplamente utilizado pelo cinema: cerca de duas dezenas de longas e curtas foram realizados a partir de suas peças, romances e crônicas - como Engraçadinha, Bonitinha mas Ordinária, A Falecida, Os Sete Gatinhos, O Beijo no Asfalto, A Dama do Lotação. Sua vida pessoal foi marcada pela tragédia: seu irmão Roberto foi assassinado por uma mulher que na verdade desejava matar seu pai, enfrentou a tuberculose, a miséria. Teve uma filha com problemas cerebrais e um filho (Nelsinho) preso e torturado pelo regime militar que ele defendia. Nelson escreveu 19 romances, a maioria com o pseudônimo de Susana Flag, 17 peças, infinitas crônicas jornalísticas que alimentavam a coluna A Vida como Ela É, na Última Hora. Logo após o Retratos Brasileiros, na estréia do festival, será apresentado o longa Boca de Ouro, policial de 1962, dirigido por Nelson Pereira dos Santos, com Jece Valadão e Odete Lara.

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