Canal Brasil exibe filme de Person

Vinte e cinco anos depois de sua morte, Luiz Sérgio Person permanece como um dos maiores esquecidos na história do cinema brasileiro. Para resgatar a memória do diretor, o Canal Brasil exibe quinta-feira, no aniversário da cidade, o seu filme mais expressivo, São Paulo S/A, um profético retrato da desumanização da metrópole nos anos 60. A filha mais velha do cineasta, Marina Person, ainda prepara documentário sobre sua vida e obra, cultuada apenas em círculo de críticos.?O trabalho de meu pai continua subestimado??, diz Marina, que desenvolve em parceria com a mãe, a documentarista Regina Jeha, e a irmã, a jornalista Domingas Person, projeto mais amplo para homenagear o cineasta, morto em acidente automobilístico em 7 de janeiro de 1976. De temperamento intempestivo, o diretor que perdeu a paciência na publicidade, mandando os chefões das agências ?plantarem batatas??, morreu um mês antes de completar 40 anos.?Existem alguns filmes emblemáticos do cinema brasileiro que ainda não estão no acervo do Canal Brasil. São Paulo S/A era um deles. Esse débito nós conseguimos liquidar agora??, afirma Wilson Cunha, diretor do Canal Brasil, que comprou também os direitos dos três outros títulos da filmografia em longa-metragem do cineasta: Panca de Valente, Cassy Jones - o Magnífico Sedutor e O Caso dos Irmãos Naves. Person também dirigiu o episódio Procissão dos Mortos, do longa Trilogia do Terror, que contou com histórias assinadas por José Mojica Marins e Ozualdo Candeias.O único título com exibição definida no Canal Brasil é São Paulo S/A, que vai ao ar amanhã a partir das 21 h. O filme terá mais duas exibições na TV por assinatura: o canal Film & Arts leva ao ar o drama protagonizado por Walmor Chagas e Eva Wilma neste sábado, à 1h ? com reapresentação no domingo, às 11h. Rodada em 1965, a produção critica a industrialização da capital paulistana, retratanto o protagonista Carlos (Chagas), como peça de uma engrenagem. ?Person leva sua câmera para a sede desse capitalismo, realizando um filme bem narrado e, ainda hoje, contundente??, comenta Cunha.Tanto São Paulo S/A quanto os demais longas de Person devem ser lançados em breve em vídeo e também em DVD ? como prevê o projeto das herdeiras do cineasta. Além de registrar em documentário a trajetória do diretor influenciado por Antonioni, Louis Malle e Alain Resnais, elas anunciam para ainda este ano o lançamento de uma biografia de Person, escrita pelo jornalista Amir Labaki, e a realização de uma mostra retrospectiva de sua carreira.?Person passou como um meteoro, mas teve grande influência sobre nós três??, conta Regina Jeha, diretora de Bexiga Ano Zero, Curumin e Cunhantã e O Guarani, documentários em curta-metragem. ?Nossas filhas também dialogam com a paixão dele??, diz, referindo-se a Domingas, que escreve sobre cinema e apresenta programa de variedades no canal Multishow, e Marina, apresentadora de Contato, na MTV, e diretora do curta-metragem Almoço Executivo.Atualmente em fase de captação de recursos, o documentário a ser realizado por Marina é uma amplicação do curta sobre Person, que ela dirigiu e inscreveu no Prêmio Estímulo do Ministério da Cultura. ?Como recebi o prêmio, fui obrigada a entregar uma cópia em 1998. Mas pedi que eles não o exibissem porque não fiquei satisfeita. Tive de cortar muito material??, afirma Marina, que pretende estender os 15 minutos de curta para 70 minutos ? incluindo material caseiro, rodado em super-8, com Person e a família.A idéia é reunir fotos, trechos dos curtas e longas que Person dirigiu e estrelou ? como O Quarto, de Rubem Biáfora, e Anuska, Manequim e Mulher, de Francisco Ramalho Jr, que revela a faceta ator do cineasta. O documentário, que leva o nome do diretor, será pontuado por depoimentos de familiares, personalidades e atores que trabalharam com ele, como Eva Wilma, Walmor Chagas, Paulo José, Raul Cortez, Paulo Goulart etc. A maior dificuldade será passar o material em super-8 e 16 mm para o formato 35 mm.?Como são raras as empresas que fazem essa conversão no Brasil, serei obrigada a mandar as cópias ao exterior. O trabalho é delicado e caro??, conta Marina, que continua aguardando a captação de R$ 200 mil (orçamento do filme) para realizar Person. Como o material está pré-montado, ela garante que, assim que conseguir o dinheiro, termina o documentário em três meses. ?Só assim meu pai receberá o reconhecimento que merece."

Agencia Estado,

23 de janeiro de 2001 | 22h35

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