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Campeã de MMA é atração em filme

Crítica: 'À Toda Prova ' é um corpo estranho na trajetória do diretor Steven Soderbergh

Luiz Carlos Merten - O Estado de S.Paulo,

19 de abril de 2012 | 03h10

Há uma história segundo a qual, embora pudesse ser muito boa nas cenas de lutas, Gina Carano se revelou tão insuficiente como atriz que o diretor Steven Soderbergh foi obrigado a recorrer a uma dubladora para dar alguma intensidade a seus diálogos em À Toda Prova. Escolheu Laura San Giacomo, com quem havia feito sexo, mentiras e videotape no alvorecer de sua carreira. Justamente em 1989, ao assistir (e premiar) àquele filme como presidente do júri no Festival de Cannes, Wim Wenders disse que havia visto o futuro do cinema. Passaram-se 23 anos e a carreira de Soderbergh seguiu ziguezagueante, alternando filmes autorais e independentes com outros naquilo que os críticos rotulam de 'cinemão'.

O novo Soderbergh - em cartaz desde sexta passada - é um corpo estranho mesmo numa trajetória como a dele. Trata-se de um veículo para Gina Carano. Gina quem? Os seguidores de MMA sabem quem é. Gina é campeã mundial de artes marciais mistas. Jet Li e Jason Statham já eram, Jean Claude Van Damme, bye-bye. A ideia de À Toda Prova começou a nascer quando ela posou nua para uma revista masculina. Soderbergh começou a divagar mentalmente sobre essa mulher, objeto de desejo, que consegue ser ao mesmo tempo letal com os punhos e os pés. A trama trata de uma ex-soldado(a) que vira mercenária e presta serviços (sujos, claro) numa rede de espionagem. A heroína é traída, mas os poderosos de plantão (Antonio Banderas, de O Príncipe do Deserto, Ewan McGregor e Michael Douglas) erram na avaliação, ao julgar que ela será fácil de eliminar.

Sempre voltado à discussão política - que, às vezes, até prevalece sobre a estética -, o Festival de Berlim não dedica ao tapete vermelho a mesma importância que Cannes. O rígido inverno berlinense também não ajuda muito, mas Gina Carano levou uma multidão de adeptos do MMA às portas do palast para assistir à sua entrada triunfal. Em Erin Brockovich, Soderbergh já havia feito de Julia Roberts uma heroína protofeminista, capaz de enfrentar os poderes com a força de seus argumentos no tribunal. Julia até ganhou o Oscar pelo papel. O jogo agora é outro. A nova heroína de Soderbergh bate e arrebenta.

Em 1985, Martin Scorsese ganhou o prêmio de direção em Cannes por Depois de Horas, um filme em que, entre outras coisas, dá forma ao medo dos homens da vagina dentada. Soderbergh propõe agora um pesadelo maior. A cena emblemática mostra o confronto dos dois profissionais, Michael Fassbender e Gina. A escolha do ator não foi acidental. Fassbender, o Jung de David Cronenberg (em Um Método Perigoso), virou Mr. Pênis em Shame, de Steve McQueen. Gina e ele supostamente se encontram para fazer sexo. O embate vira de outra natureza - uma luta mortal. Mr. Pênis enfrenta punhos de aço. A novidade de À Toda Prova está na violência sexy de uma mulher perigosa como ela só.

Crítica: Luiz Carlos Merten

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