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Campanha sem fim

No caos da presidência espetáculo, um perigo é a mídia morder a isca

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

20 de fevereiro de 2017 | 02h00

Hoje faz um mês. Parece que faz um ano. Seguido por entusiasmados foliões, o trio elétrico da Casa Branca continua a prometer farra o ano inteiro. Até comício houve no fim de semana, na Flórida. Como num carnaval nunca interrompido pela Quarta-feira de Cinzas, o governo que tomou posse no dia 20 de janeiro continua a adiar seu começo. Há perto de mil cargos chave da burocracia federal sem ocupantes.

Há um país e duas políticas externas. O presidente diz que tanto faz um estado ou dois para solucionar o conflito entre israelenses e palestinos, no dia seguinte, sua embaixadora na ONU diz o oposto. O presidente humilha um repórter judeu por perguntar sobre a disparada de incidentes de antissemitismo no país, em seguida, seu vice posa, contrito, num campo de concentração na Alemanha. Na trincheira ideológica em que se transformou a Casa Branca, o ultranacionalista Steve Bannon sussurra palavras de ordem que o presidente repete e choca aliados em vários continentes. O secretário de estado e o vice-presidente foram à Europa tentar fazer faxina entre os perplexos e insultados. Mas eles ouviram também o veterano senador e falcão de política externa John McCain dizer que o governo do presidente eleito por seu partido está “em desordem”.

Há uma enxurrada de ordens executivas, mas nenhum esforço coordenado para legislação que leve ao cumprimento de promessas de campanha sobre a economia. Há repetidas ameaças não cumpridas, como retaliar contra a China, cancelar acordos de livre comércio. O poder executivo vaza mais do que peneira e é evidente que vários vazamentos vêm de desorientadas figuras próximas ao presidente.

Foi o caso com a demissão do combustível assessor de segurança nacional, o general reformado Michael Flynn, defenestrado, não por suspeita de que fez promessas à Rússia no dia em que Barack Obama expulsava diplomatas e impunha sanções, mas por ter mentido a respeito ao vice Mike Pence. O Conselho de Segurança Nacional, uma burocracia formada por vários ministérios e agências, está tão desmoralizado que dois veteranos recusaram o convite para substituir Flynn depois do que viram quando levantaram o capô do carro. Um deles, o condecorado vice-almirante da reserva Robert Harward, confessou a um amigo que a oferta equivalia a um “sanduíche de merda.” Servir à frente do Conselho é um privilégio para qualquer militar de carreira e a recusa de Harward é um recado assustador para a comunidade de defesa.

Mas, numa coletiva surrealista, o presidente passou 77 minutos, na sexta-feira, revisitando suas mágoas de campanha e atacando seu espantalho favorito, a imprensa. Não satisfeito, horas depois tuitou uma acusação carregada de veneno histórico, definindo a imprensa como o verdadeiro “inimigo do povo” americano, expressão que saiu da boca de Lenin, Stalin e Hitler. E não, o presidente não é uma reencarnação de nenhum deles. De fato, ele é obcecado pela mídia e por sua aprovação. Se um âncora da Fox News, agora redirecionada por Rupert Murdoch como TV estatal, diz uma frase de efeito, minutos depois ela aparece num tuíte presidencial. Se um âncora da CNN, agora marcada como inimiga, diz outra, o presidente esperneia em outro tuíte.

Como estrela de reality show, o presidente sabia que o noticiário seria consumido pelos insultos ao jornalismo. Ele não se dirige ao país todo, se dirige aos próprios eleitores e está tendo sucesso em instigar o público contra uma instituição fundamental de qualquer democracia, a imprensa livre. No caos da presidência espetáculo, um perigo é a mídia morder a isca e, como prefere a Casa Branca, se distrair do que está em curso na capital. Como disse o sóbrio editor chefe do Washington Post, Marty Baron, “Não estamos em guerra com o governo, estamos trabalhando.”

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