Imagem Ruth Manus
Colunista
Ruth Manus
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Camisa passadinha

Pessoas que trabalham bem sempre vão ter a roupa minimamente amassada

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2017 | 02h00

Era o Cláudio quem ia cuidar do processo de venda. Eu não podia escolher, ele era o responsável e pronto. Havia muita pressa para concluir a venda. Todos nós estávamos com pressa, inclusive o Cláudio, que eu ainda não conhecia. Marcamos às 17 horas no escritório dele. Estava ansiosa.

Cheguei às 16h50. Esperei e ele apareceu pontualmente às 17. Mas quando o Cláudio surgiu, eu já sabia que aquilo não ia correr bem. Fizemos a reunião, eu frisei a pressa mais uma vez, ele disse que estava tudo engatilhado, para eu não me preocupar. E eu, de fato, não estava preocupada, estava derrotada.

Saí e encontrei minha irmã. Ela perguntou como tinha sido e eu avisei: Não vai funcionar. “Como assim? Não vai.” Ele não vai vender nada. Ela perguntou o porquê da minha certeza e eu não sabia explicar muito bem. Disse que ele tinha algo estranho, tinha algo de errado, tinha... a camisa muito passadinha.

Ela olhou para a minha cara, como seu eu estivesse louca. Há 28 anos, ela me olha com essa cara. Eu tentei explicar. Nina, a reunião era às 5 da tarde. E ele estava com a camisa passadinha, isso não faz sentido. Ela seguia me olhando com aquele ar de irmã mais velha, que exige justificativas melhores.

Articulei: escuta, gente que está com a roupa passadinha quase no fim da tarde, das duas uma, ou chegou ao trabalho às 3 da tarde ou não sai da própria cadeira o dia inteiro. E como eu sei que ele trabalha desde cedo, ele se encaixa na segunda opção, que é muito pior.

 

Nina seguia olhando para a minha cara, enquanto apoiava a cabeça nas mãos, como quem diz que não sairá dali até estar convencida. Falei: Escuta, quando você manda um coisa imprimir, você vai buscar na impressora, não vai? “Sim.” E quando você precisa de um documento do arquivo você vai lá buscar, não vai? “Vou.” E quando você derruba café no chão, você corre para pegar papel e abaixa para limpar, não é? “É.” E quando você tem que levar uma pilha de papel para o seu chefe você pega a pilha nos braços e leva, não leva? “Levo.”

Entendeu, Nina? Pessoas que trabalham bem sempre vão ter a roupa minimamente amassada. Gente de camisa passadinha é gente que não coloca a mão na massa. Gente de ‘ui, ui’. Gente que pede tudo pra secretária, pro estagiário, pra copeira, pro manobrista, pro colega de baia. Entendeu? Gente que diz “eu não estudei tanto para carregar papel”, “eu não estudei tanto para limpar café do chão”, “eu não estudei tanto para ficar pegando coisa no arquivo”. Gente que trabalha realmente bem digitaliza documento, pergunta se a galera quer café, ajuda o contínuo quando ele está vindo muito carregado no corredor. Não importa o cargo, nem quantos diplomas a pessoa tenha, nem nada. Gente que trabalha bem, trabalha bem em tudo. E AMASSA A CAMISA.

Ela olhou para mim, deu uma risadinha, falou “você é maluca, vamos comer um temaki” e se levantou. Eu completei: Tá vendo? Olha pra sua blusa. Amassada. Isso sim transmite confiança. Ela já nem me ouvia mais. Comemos o temaki e semanas depois minha irmã descobriu que estava grávida.

A Luísa - coisa mais linda deste mundão - fez um ano e meio na semana passada e a venda ainda não foi concretizada. Cláudio segue elegante e austero com sua camisa passadinha e seus diplomas emoldurados na parede. Eu já sabia, essa coisa de camisa passadinha é uma praga.

Mais conteúdo sobre:
Cláudio Ruth Manus

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.