Leonardo Soares/ AE
Leonardo Soares/ AE

Caminhos para o futuro

Em São Paulo, o francês Edgar Morin destacou riscos da economia como forma de conhecimento dominante

Raquel Cozer, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2011 | 00h00

O totalitarismo é coisa do passado, mas nossa entrada no século 21 testemunha o crescimento de outro "polvo" capaz de abraçar o mundo: o da especulação financeira, ante a qual a política de países como os EUA se mostra impotente. Foi essa linha de pensamento que o antropólogo, sociólogo e filósofo francês Edgar Morin defendeu ontem em palestra do evento Fronteiras do Pensamento, na Sala São Paulo. A fala de Morin se estendeu por uma hora e meia, durante a qual, aos 90 anos, ele permaneceu de pé.

"Uma agência privada de notação, cuja nota máxima é AAA, retirou o último A dos EUA, o que desencadeou uma tempestade mundial nas bolsas. Isso quer dizer que a especulação financeira domina Estados, nações, povos", argumentou Morin. Pensando nos caminhos possíveis para a humanidade nesse contexto, o pensador publicou na França em janeiro La Voie - Pour L'Avenir de l'Humanité, previsto para 2012 pela Bertrand Brasil.

Morin destacou que, se a economia tem hoje papel preponderante nas definições dos rumos do mundo, ela é tão certeira quanto imprevisível: ao mesmo tempo em que a área apresenta extrema sofisticação de cálculos, 95% dos economistas se mostram incapazes de prever crises como a de 2008 e a queda das bolsas ocorridas nesta semana.

"Nossa inteligência está cega diante dos problemas globais. Temos a incapacidade de antever as relações entre economia e sociedade", disse. Entre as consequências mais graves desse "saber mutilado", continuou Morin, estão o nacionalismo, o chauvinismo e a xenofobia, males do século 2o que ficaram estancados por décadas e que hoje crescem, descontrolados, principalmente nos países europeus.

O caminho alternativo à impotência seria, no pensamento de Morin, a percepção de que se pode trabalhar em nome da unidade e da diversidade ao mesmo tempo. "Não é um caso de interromper o processo de globalização, mas de entender que a unidade humana precisa da diversidade", afirmou, defendendo que a globalização é a melhor ("pela primeira vez, todos os povos são intersolidários") e a pior coisa que pode acontecer ao mundo (neste último caso, pela degradação econômica e ambiental que decorre dela).

A via a se seguir seria, então, a capacidade de crescer e reduzir ao mesmo tempo, desenvolver e "desdesenvolver", globalizar e desglobalizar". "No limite, seria uma política que faria com que cada país estimulasse o melhor da própria cultura e apreendesse o melhor do que vem do exterior."

Antes da fala de Edgar Morin, no começo da noite, foi exibido um vídeo com entrevista de Zygmunt Bauman para o Fronteiras do Pensamento. Um dos convidados deste ano, o pensador polonês anunciou em junho que não poderia vir "devido a graves problemas de saúde em sua família", mas quis compensar a ausência com a fala, gravada em sua própria casa. Embora tenha destacado que não aprendeu profecia na faculdade de sociologia, arriscou análises sobre a sociedade do futuro. Fez graça ao falar do Facebook, relatando que ouviu de um "viciado" na rede que este já tinha 500 amigos. "Tenho 86 anos e não cheguei a tanto. A questão é que essa amizade virtual corta essa mistura de bênção e maldição que são os laços humanos. Os jovens nem imaginam o que perdem com isso."

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