Caminhos de um novo nacionalismo

Cada vez mais orquestras de todo País investem na encomenda de obras que misturam a escrita sinfônica com a MPB

O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2013 | 02h17

Não é segredo que na última década e meia a música clássica brasileira tem passado por um processo de transformação. Excelentes orquestras, bons festivais e o desenvolvimento de sistemas de educação e difusão musical formam um cenário promissor. Não são rara as vezes em que os frequentadores das salas de concertos e das casas de ópera têm vivenciado espetáculos exuberantes, realizados por músicos brasileiros ou que adotaram o país como lar.

Na medida em que aqui se procura mimetizar o que ocorre no exterior, algumas poucas orquestras brasileiras têm realizado encomendas a compositores vivos (porém de forma minguada) para cumprir um tanto desleixadamente a cota politicamente correta de música moderna em meio ao calhamaço histórico do repertório que normalmente pauta nossas temporadas.

Mas o problema, por assim dizer, é a bicromatização da imensa maioria destas encomendas feitas pelas orquestras brasileiras. Ao limitar-se a paleta de cores musicais ao verde e ao amarelo, promove-se, consequentemente, uma série de reduções: reduz-se aquilo que é aceito como música, reduz-se o que se entende por cultura musical brasileira e distorce-se o sentido da invenção musical.

O crossover - isto é, a mistura entre a música popular brasileira com elementos da linguagem sinfônica - tem sido a tônica das obras comissionadas por nossos grupos sinfônicos, lógica esta especialmente sensível nas últimas temporadas da Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo), que por sua vez acaba por servir como modelo para outras orquestras do país.

O fato, em si, não é novidade, pois já no século 19 compositores clássicos alinhados ao nacionalismo se apropriaram de parcela de nossa música popular rural (a dita "música folclórica") como material de suas composições. No século passado o movimento ganhou um novo fôlego, quando então o cancioneiro nordestino foi definitivamente alçado à condição de símbolo-mor de nossa música (em detrimento de uma infinidade de ritmos e estilos de outras regiões do País), ao mesmo tempo em que Villa-Lobos se destacava pela inserção da música popular urbana carioca.

No neonacionalismo atualmente em curso, o referencial musical concentra-se na canção da MPB dos anos 1960-70 (em tempo, um repertório em seus termos rico e belíssimo), algumas práticas de música instrumental popular, e de tabela, uma pitada de jazz.

Até aí, na teoria, problema algum, pois os artistas devem ser respeitados em sua soberania estética. Mas, na prática, o problema é o monopólio verde e amarelo que se instaurou, ao qual se soma a fragilidade musical do que temos ouvido por aí. Frágil pela maneira de se relacionar com este cancioneiro, sempre abrindo mão da inventividade musical em prol de uma "revisitação". Quase nada vem com um frescor de novidade, tudo fica com cara de paráfrase, quando não de paródia.

Ainda assim, mesmo no âmbito da paráfrase e do arranjo, ouve-se um discurso sonoro previsível, tecnicamente limitado à escritura musical do início do século passado ou, pior, aos clichês de orquestração dos filmes Hollywood, anos-luz da ousadia desenvolvida neste gênero por mestres como Ruriá e Rogério Duprat ou Radamés Gnatalli, por exemplo.

Ou seja, traveste-se o sambista com uma casaca apertada ou fantasia-se o maestro como malandro da Lapa. O resultado tem sido uma música engessada, que não rende nem samba no pé nem tutti convincentes.

O neonacionalismo ocorre de forma velada, sem manifestos ou ideologia formalizada, mas ainda assim conta com a chancela governamental oficial, na medida em que as orquestras e os teatros do País são, em última instância, instituições públicas. Por isto trata-se de um projeto excludente, que visa estabelecer o que é e o que não é "música brasileira", clássica e popular. Ame-a ou deixe-a.

A ironia é que os protagonistas desse movimento defendem suas posições artísticas (e de tabela a reserva de mercado) pela ideia da "música sem fronteiras". Mas neste contexto esta ideia se revela uma falácia, pois o sinfonismo verde e amarelo é em si uma fronteira bem delimitada.

Não seria uma opção mais interessante investir-se não apenas no verde e amarelo, mas em toda rica paleta de cores de nossa música, e assim, reforçar os melhores predicados do adjetivo "brasileiro" de nossa cultura, tais como diversidade, pluralidade e, principalmente, inventividade?

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