Caminhoneiros condenam "Carga Pesada"

A Globo exibe hoje o último episódio da atual temporada de Carga Pesada. Chama-se Terra-Mãe e foi escrito por Ecila Pedroso. A série só volta no ano que vem. Apesar da audiência de 23 pontos na Grande São Paulo, talvez volte mudada. O diretor de núcleo da Globo, Marcos Paulo, está preocupado com os rumos da sua criação e atualmente encontra-se com roteiristas para estudar as mudanças. Uma boa fonte de pesquisa poderiam ser os postos de todo o Brasil, onde os caminhoneiros encostam à noite seus veículos pesados, para jogar um pouco de conversa fora e descansar. Bater lavanca, que é como eles definem o ato de cair na estrada e passar o dia todo dirigindo, não é tarefa fácil. Ou melhor, só é fácil na ficção da Globo.A Transdiesel Comercial, no Piqueri, é um desses pontos de encontro na capital paulista. Serve como estacionamento, borracharia e lava-jato. Lá existe uma pequena TV em preto-e-branco. Foi em torno dela que o Estado reuniu um grupo de caminhoneiros para assistir ao Carga Pesada da semana passada. A maioria não vê o programa regularmente. "Passa muito tarde e quem bate lavanca o dia inteiro tem de dormir cedo", diz Daniel de Fares. "Às 4 horas já estamos na estrada." Ele acha a série legal como aventura, mas não se sente retratado na tela. Alvim Toledo Costa, o dono da Transdiesel, acha que Carga Pesada trabalha com clichês que fortalecem o preconceito contra caminhoneiros. Alcides, que só se identifica assim, é ainda mais crítico. "Aquilo é uma porcaria. Minha mulher vive me jogando na cara: ´Você gosta da estrada porque é só farra, uma vida de cabaré, de muita mulher´. De onde ela tirou essa idéia maluca, que não tem base na realidade? Do Carga Pesada, claro." Outro dia, passou aquele episódio em que o Antônio Fagundes atravessa a fronteira para recuperar seu caminhão, que foi roubado. Ele chega no desmanche e consegue recuperar o veículo. Só mesmo na fantasia. "Quem vive na estrada sabe que isso é mais difícil do que a tal história da agulha no palheiro. O que você ouve por aí são só histórias de quem foi roubado e nunca mais viu nem sinal do caminhão", relata José Rolim Viana, estradeiro com muito chão percorrido. O próprio caminhão da ficção é uma fantasia, pelo menos para a imensa maioria dos estradeiros. A maioria deles trabalha com caminhões usados, só quem tem dinheiro para comprar caminhões novos são as empresas. E aí o caminhoneiro é um assalariado como os outros. Reclama das más condições de trabalho, da ausência de jornada estabelecida, do baixo salário. Reúna um grupo de caminhoneiros como os de terça passada e você até vai ver que todos têm histórias de mulheres e cabarés de beira de estrada para contar. "A 116 é famosa", dizem. Mas o que os motiva são as histórias de solidariedade humana, as histórias de famílias. Caldato se arrepia até hoje ao lembrar o acidente pavoroso que presenciou. O caminhão tombou, depois de atingir um carro. O motorista morreu na hora, sua mulher, também, mas o pior foi quando eles conseguiram tirar a mãe e viram que ela matou o próprio bebê, sufocado sob o peso da mulher que tombou para a frente. Caldato chora e não tem vergonha. Outro conta uma história terrível, sobre quatro estudantes de medicina que saíram de uma aula de anatomia. O carro bateu, virou, os estradeiros pararam tentando prestar socorro. Fizeram respiração artificial, providenciaram carros para levar as vítimas ao hospital mais próximo e lá eles foram morrendo, um a um. Estradeiros adoram contar histórias de família. Fernando Carvalho Bezerra já teve sua fase de esbórnia, hoje coloca a família em primeiro lugar. José Rolim Viana tem uma filha veterinária, José Eduardo Giorgetto tem um filho que estuda administração na USP. São estradeiros responsáveis. Reclamam da falta de sindicalização e de policiamento, são contra cachaçada na estrada.São muitas as histórias de policiais que abusam na hora da investigação, um eufemismo para extorsão. E todos reclamam dos pedágios. "Essa história de caminhoneiro com dinheiro no bolso é só na TV", diz Christiano Santana. "Faz um rapa aí e ninguém tem dinheiro no bolso, como aqueles caras da série." Viana conta que outro dia fez um carreto de R$ 6 mil. Parece um monte de dinheiro, mas ele foi deixando tudo na estrada, em pedágio e diesel. No final, sobrou R$ 1,5 mil, para o sustento e para manutenção do carro, que sofre desgaste nesses 4 ou 6 mil quilômetros que um estradeiro faz num só carreto. A vida é difícil, mas a maioria deles não larga a estrada. Sim, estar no volante dá uma sensação de liberdade e isso vale todo sacrifício, mesmo que muitas vezes essa liberdade seja só ilusória, coisa de ficção, como a da Globo. "Carga Pesada" chega ao fim criticada pelos caminhoneirosCaminhoneiros reunidos pelo Estado em um de seus pontos, uma borracharia do Piqueri, criticaram o seriado da Globo, que exibe hoje o último episódio do anoA Globo exibe hoje o último episódio da atual temporada de Carga Pesada. Chama-se Terra-Mãe e foi escrito por Ecila Pedroso. A série só volta no ano que vem. Apesar da audiência de 23 pontos na Grande São Paulo, talvez volte mudada. O diretor de núcleo da Globo, Marcos Paulo, está preocupado com os rumos da sua criação e atualmente encontra-se com roteiristas para estudar as mudanças. Uma boa fonte de pesquisa poderiam ser os postos de todo o Brasil, onde os caminhoneiros encostam à noite seus veículos pesados, para jogar um pouco de conversa fora e descansar. Bater lavanca, que é como eles definem o ato de cair na estrada e passar o dia todo dirigindo, não é tarefa fácil. Ou melhor, só é fácil na ficção da Globo.

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