'Caminho das Índias' termina com um show no Twitter

Rede social reuniu autora, fãs e elenco, em interação online como nunca houve antes no final de uma novela

Patrícia Villalba, de O Estado de S. Paulo,

17 de setembro de 2009 | 04h00

Quem gosta de seguir uma história pela TV durante pelo menos oito meses sabe: não tem nada mais sem graça do que ver novela sozinho. Afinal, há sempre duas novelas: a oficial, escrita pelo autor, e uma outra, sem freio, que se forma a partir dos comentários sobre a primeira, nos salões de beleza, pontos de ônibus, lanchonetes de empresas e qualquer lugar onde se juntem dois noveleiros. Com Caminho das Índias (Globo), que terminou na última sexta-feira, não foi diferente.

 

Maya e Raj em cena: "a internet multiplica a rapidez da resposta do público à história que você está contando", diz Glória Perez. Foto: Divulgação

 

Mas a novela de Glória Perez contou com um reforço, o Twitter, o que representou notável avanço na ligação entre a televisão e a internet, tão sonhada pelos executivos das emissoras. A rede social de microblogs, onde agora tudo parece acontecer em mensagens de 140 caracteres, transformou-se numa imensa sala de estar, onde qualquer mortal telespectador tinha a sensação de estar assistindo à novela ao lado de outros milhares de telespectadores e, mais divertido, de gente como o jornalista Ricardo Noblat (que se revelou noveleiro de olho clínico), atores do elenco, humoristas e a própria Glória Perez. "Vi o último capítulo em casa, no computador, acompanhando o Twitter, me emocionando e me divertindo com os comentários", diz a autora, em entrevista ao Estado, por email.

 

No novo desenho de programação, com muitas opções e consequente pulverização da audiência, os números aferidos pelo Ibope tornaram-se apenas uma das maneiras de medir o sucesso. A repercussão de um folhetim, entretanto, continua sendo o melhor termômetro da força da telenovela - algo que vira-e-mexe é questionado. Novela boa é novela que repercute, repetem os autores mais experientes.

 

Por isso, Caminho das Índias surpreende. Além dos 55 pontos de média no Ibope na Grande São Paulo (cada ponto representa 56 mil domicílios) e 81% de share (o que significa que de cada 10 televisores ligados, 8,1 estavam sintonizados na Globo no momento), o site da novela na internet teve média de 2.336.552 visitas, com picos de 2.760.412 na quarta-feira e 2.654.881 na sexta (dados do Google Analytics).

 

A TV brasileira, que até então só podia contar com a tal "participação do internauta" por meio de mensagens e envio de vídeos caseiros vexatórios, nunca viu tamanha integração, a ponto de a audiência de um site ligado a um programa ser tão expressiva. É algo que foi se desenhando mês a mês, conforme avançava a história de Maya (Juliana Paes) e Raj (Rodrigo Lombardi). Nos últimos dias da trama, a Globo não teve pudores, por exemplo, de apresentar cenas decisivas do capítulo do dia em primeira mão na internet, seguindo a estratégia das grandes redes americanas para divulgar seriados. O vídeo mais visto, que antecipou cenas do último capítulo, teve 392.574 acessos.

 

E há ainda um detalhe saboroso: isso aconteceu justamente com Glória Perez que levou a internet para as novelas, com Explode Coração (1995). De início, o Brasil viu com certa desconfiança a história da cigana Dara (Tereza Seiblitz) que conhecia seu amor, Júlio Falcão (Edson Celulari), numa conversa de computador. "Posso dizer que Explode Coração foi a primeira novela interativa. Na época eu frequentava BBS (precursora da internet), e estava impressionada com o número de pessoas que se apaixonavam através do computador e rompiam até casamentos para viver essas paixões virtuais, que terminavam e ainda ficavam mal resolvidas, sem que nunca seus protagonistas tivessem se avistado", lembra Glória. "Falei do projeto de escrever a novela, e as pessoas retornavam, contando suas experiências amorosas no território virtual. Assim nasceu e desse diálogo se alimentou Explode Coração."

 

O fato de a novela "ter bombado" na internet serve, claro, para mantê-la como um dos assuntos mais comentados do País enquanto ela estiver no ar. Mas, na opinião da autora, a audiência que ela alcança na TV é outra coisa. "O que a internet faz é multiplicar a rapidez da resposta do público à história que você está contando", diz. "Construir uma cena é construir uma emoção em quem assiste. Se o público não responde, com certeza você tem de mudar: não a direção da trama, mas a forma de contar a história."

 

E já que o assunto é mudança na trama, Glória aproveita para responder um dos comentários mais frequentes entre os twitteiros nas quase duas horas em que o último capítulo ficou no ar: por que Bahuan (Márcio Garcia), o protagonista da história que foi sumindo de cena semana a semana, não mereceu falas e mais do que 30 segundos no final? "A história de Bahuan se desfechou, realmente, no penúltimo capítulo", diz a autora, em 66 caracteres, bem à moda do Twitter.

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