Caminho aberto graças ao memorial

João Tordo faz parte de uma geração que cresceu tendo José Saramago como maior referência literária dentro de seu país. Nasceu em 1975, em Lisboa, e beirava os 7 anos quando o romance Memorial do Convento fez do já veterano autor um nome reconhecido em todo o mundo. "Para a minha geração, ele é sem dúvida o escritor mais importante dos últimos 100 anos. Gerações anteriores tinham Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, mas, para nós, foi ele quem mudou a maneira de entender a literatura."

Raquel Cozer, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2010 | 00h00

Tordo, hoje com 34 anos, foi o último escritor a receber das mãos do conterrâneo o Prêmio José Saramago, em outubro do ano passado, por As Três Vidas (o romance sai no Brasil em agosto, pela editora Língua Geral). O que viu à sua frente foi um homem "muito fraco, muito doente", mas o que guardou "foi o peso de dali para a frente carregar o nome José Saramago" numa obra de sua autoria. Dedicada a ficcionistas com até 35 anos que escrevem em língua portuguesa, a honraria também entregue a autores como o lusitano José Luis Peixoto (2001) e a brasileira Adriana Lisboa (2003) reflete um interesse do Nobel de Literatura em dar oportunidade a jovens que tenham potencial para manter em destaque a produção no idioma. "Ele criou o prêmio e acompanhava de perto. Sempre lia os livros", diz o editor de Saramago em Portugal, Zeferino Coelho.

Gonçalo M. Tavares, de 39 anos, agraciado em 2005 por Jerusalém, vê a influência de Saramago de forma indireta, no sentido de ter feito editores de vários países passarem a prestar atenção num idioma pouco falado e conhecido. "Ele é uma referência para toda a literatura portuguesa, se pensarmos em referência como um ponto de partida. Não vejo como uma influência direta porque a escrita de Saramago é muito particular, muito própria, seja no estilo, seja na pontuação, seja na capacidade de criar um universo, por assim dizer, improvável no qual o leitor se vê totalmente acreditado ao fim", argumenta.

De uma geração anterior a de João Tordo, o jornalista e escritor português Francisco José Viegas, de 48 anos, tinha dois livros de poesias publicados quando Memorial do Convento fez o que considera uma revolução na ficção produzida em Portugal. "De uma só vez, Saramago reinventou a linguagem do barroco, reconstruiu a história do país, por meio das pessoas humildes em vez da nobreza, e criou aquela personagem fabulosa que era a Blimunda. Com aquilo, ele começava a fazer a literatura portuguesa reaprender a lição de seus autores clássicos", diz.

Para o escritor, outros "passos gigantescos" foram dados na década seguinte, com a parábola sobre o mundo contemporâneo contida em Ensaio sobre a Cegueira, de 1995 ? cuja apresentação ficou a cargo de Viegas, que já tinha então cinco romances publicados ? e o Nobel, três anos depois. "Aquilo então se tornou uma espécie de meta para todo escritor português. "Imagina, este homem vive da literatura, vive do que escreve, como um profissional."" Para todo escritor português, mas também para todo o conjunto das literaturas em língua portuguesa, como sintetiza o angolano José Eduardo Agualusa: "Quando recebeu o Nobel, Saramago abriu caminho para todos nós."

Colaborou Jair RATTNER

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