Assad Rajani
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Caminhadas em família: uma maneira de aprofundar laços, melhorar a saúde e o humor, juntos

Localidades junto à natureza podem influenciar tanto o corpo quanto a mente, no sentido de evitar problemas de saúde como AVCs ou melhorar a qualidade do sono e aumentar a sensação de felicidade em relação à vida

Galadriel Watson, Washington Post

26 de abril de 2021 | 20h00

Em ritmo frenético - é assim que Ellie Pojarska descreve sua vida familiar antes da pandemia. Ela e o marido trabalhavam fora o dia inteiro, sua filha pré-adolescente se mantinha superocupada com aulas de dança e seu filho adolescente dividia o tempo entre aulas de piano, sax e tênis, uma banda de jazz e a equipe de tênis. As noites da família de Belmont, Califórnia, eram uma confusão de caronas, buscando ou deixando os filhos em algum lugar.

Quando a pandemia começou, isso parou. Subitamente, o frenesi acabou.

“Nos preocupamos por eles não se exercitarem o suficiente”, afirmou Ellie, de 44 anos, “e estarem passando tanto tempo no Zoom”. Apesar de Ellie ainda sair de casa para lecionar a estudantes do ensino médio (tanto presenciais como online), o marido dela, Rado Iliev, de 42 anos, que trabalha para uma empresa de tecnologia, passou a trabalhar em casa temporariamente. Com menos tempo gasto nos deslocamentos e as atividades extraescolares canceladas, “nós começamos a caminhar”. Todos juntos.



A família adotou diariamente essa atividade, que dura cerca de uma hora. Os filhos - Raya, de 11 anos, e Sava, de 15 - “agora exigem as caminhadas, mesmo quando, certas vezes, meu marido e eu estamos cansados demais, no fim de um longo dia de trabalho”, afirma Ellie, acrescentando que esses passeios ao ar livre se tornaram vitais para a sanidade de sua família.

Ela aconselha, “Mais gente precisa disso”.


 

Especialistas concordam que caminhar em família é benéfico por muitas razões

“Uma das consequências da pandemia de covid foi o aumento da aceitação e do reconhecimento da importância da atividade física e da importância para crianças e jovens de brincar ao ar livre”, afirma Guy Faulkner, professor of cinesiologia da Universidade da Colúmbia Britânica e principal cientista do Laboratório de Atividade Física da População, que pertence à instituição universitária.

Ao longo do ano passado, opções de atividades para crianças ficaram limitadas, com as restrições aplicadas a esportes, acampamentos de férias e outras atividades, mas caminhar em família é uma solução válida, que merece ser mantida mesmo depois de voltarmos para uma rotina mais parecida com algum tipo de normalidade, afirma Faulkner. “Não é necessário nenhum equipamento, não custa dinheiro e você pode caminhar perto de onde quer que viva, contanto que seja um local seguro e agradável.”

Estudos comprovam vários benefícios físicos: por exemplo, caminhar pode ajudar a reduzir o risco de doenças cardíacas, acidentes vasculares cerebrais, diabetes tipo 2 e alguns tipos de câncer. Mesmo caminhadas curtas, de três minutos, podem ajudar a melhorar a saúde e o metabolismo das crianças. Ir para escola sem depender de ninguém, incluindo a pé, é associado a menores taxas de problemas de peso entre crianças.

Localidades junto à natureza - sejam parques repletos de verde ou beiras de lagos, cursos d’água ou do mar - podem influenciar tanto o corpo quanto a mente, no sentido de evitar problemas de saúde como AVCs ou melhorar a qualidade do sono e aumentar a sensação de felicidade em relação à vida. Uma caminhada no parque é capaz de reduzir o nível de hormônios relacionados ao estresse e sintomas de ansiedade e depressão. Quanto mais espaço verde houver em torno das escolas, menos estresse e cansaço mental haverá entre os estudantes. Durante a pandemia, espaços verdes ou com vista para a água ajudaram as pessoas a se sentirem mais positivas. Até os sons da natureza fazem baixar o estresse e despertam emoções de positividade.

Não pense, porém, que uma caminhada é inútil a não ser que seja realizada numa paisagem natural. Caminhar em meio à urbanidade também funciona. “Acho que benefícios ocorrem em qualquer ambiente, realmente”, afirma Faulkner. “As crianças desenvolvem a habilidade de se localizar e aprendem a caminhar pelo bairro, seus laços afetivos com a vizinhança também se fortalecem.”

Na verdade, quando a pandemia fez, inicialmente, com que a trilha próxima à casa de Ellie fosse interditada, a família explorou as ruas do bairro, “que nós meio que já conhecíamos, mas descobrimos que não assim tão bem”, afirma Ellie. “Fazemos rotas diferentes agora e demos nomes às rotas.”


 

Caminhadas e conversas em família

O maior benefício para Ellie, porém, é a proximidade entre sua família que as caminhadas propiciam. “Conversamos muito mais do que antes, isso é fato”, afirma ela. “Não usamos o telefone quando estamos caminhando, que é o perigo de quando estamos em casa.”

Gloria González-López, professora de sociologia da Universidade do Texas, em Austin, afirma que caminhadas em família são uma ótima maneira de “puxar diferentes tipos de conversa” e fazer alguma coisa que nos una, que “não precisa ser algo tão intenso”.

Por exemplo, uma conversa pode ser provocada pelo clima, por alguém ter notado uma árvore ou visto cachorros brincando - o que desencadeia memórias, evoca nossa vida atual ou pensamentos a respeito do futuro. Esse tipo de interação casual é uma maneira de desenvolver, nutrir e renovar laços entre os parentes. “Caminhadas em família nos dão a chance de estabelecer conexões com a nossa família de maneiras criativas.”

Ellie concorda que passar tempo junto é algo especial. Ela recordou um dia em que seu filho estava caminhando mais à frente, ao lado do pai, “andou de volta até onde minha filha e eu estávamos e falou à irmã, ‘OK, agora é minha hora com a Mamãe. Vai falar com o Papai’.”

Ela se emocionou. “Uau, ele precisa do tempo com a Mamãe!”, lembra que pensou.

Essa forte conexão pode continuar no futuro. Quando criança, Gloria saía para caminhar com seus pais e irmãos. Ela afirma, “Fiquei com os olhos cheios de lágrimas quando pensei nisso, porque dou muito valor àqueles momentos”.

Com filhos entediados e incansáveis, pode ser fácil introduzir caminhadas em família. “As crianças chegaram a um limite em que, eu acho, muitas delas querem sair de casa de qualquer jeito”, afirma Faulkner.

Para tornar os passeios ainda mais divertidos, você pode “colocar uma brincadeira na equação”. Por exemplo, Faulkner e sua família jogam um dado quando chegam a cruzamentos. “Se dá 1 ou 2, viramos à esquerda. Três ou quatro, vamos em frente. Cinco ou seis, viramos à direita.”

Você pode tentar o geocaching, uma caça ao tesouro que envolve uso da tecnologia para encontrar objetos escondidos. Faulkner e sua família também procuraram pokémons na época em que o Pokémon Go foi popular. E você pode estabelecer limites para o tempo de tela dentro de casa para realçar o apelo do passeio ao ar livre.

Claro, pode haver desafios. As agendas de trabalho dos pais podem lhes dar pouco tempo para participar - especialmente enquanto os funcionários trabalhando remotamente são vacinados e voltam para o escritório. E, como Faulkner lembrou, alguns lugares podem ser inseguros. Um passeio pelo acostamento de uma rodovia barulhenta e poluída pode não ser ideal. Pessoas com deficiências físicas podem ter de selecionar rotas em que o uso de cadeiras de rodas ou andadores seja possível. Em alguns casos, um jogar um jogo de tabuleiro ou fazer um bolo com os parentes pode ser uma boa alternativa.

Mas para quem for capaz de encarar, uma caminhada com a família é uma ótima atividade. “Passear ao ar livre faz bem, tira a nossa mente do isolamento”, afirma Kenneth Rubin, professor e “distinto pesquisador-docente” nas áreas de desenvolvimento humano e metodologia quantitativa da Universidade de Maryland. “Todo mundo se sente melhor depois.”

Gloria tem o costume de caminhar e adora dizer um oi de passagem a outros pedestres e famílias. A pandemia é incrivelmente desafiadora, afirma ela, mas caminhar com pessoas amadas é “provavelmente uma das bênçãos ocultas dessa situação”.

Mas como conseguir manter essa preciosa atividade depois que o mundo voltar ao normal, em vez de retomar rotinas indesejáveis? Tente estabelecer limites que você não pretende ultrapassar (por exemplo, permitir que cada filho participe de apenas uma atividade extracurricular de cada vez) ou use lembretes digitais. Instale gatilhos em lugares visíveis; por exemplo, guarde os tênis de caminhada da família em um sapateiro perto da porta de casa; isso estimulará vocês, além de facilitar ainda mais o hábito.

Na família de Ellie, as atividades extraescolares estão recomeçando gradualmente. Eles serão capazes de manter as caminhadas em família quando a vida retornar ao ritmo pleno? “Não sei!”, responde Ellie. “Esperamos que sim. Conversamos a respeito disso. Esperamos conseguir continuar com as caminhadas.”


* Galadriel Watson é escritora, desenhista de quadrinhos e autora de livros infantis como Running Wild.


Tradução de Augusto Calil

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