Alexandre Catan/Divulgação
Alexandre Catan/Divulgação

'Camille e Rodin' revê impacto de caso amoroso na obra dos artistas

Escrita por Franz Keppler, peça rememora os 15 anos em que os dois escultores viveram juntos

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES - O Estado de S.Paulo,

22 de junho de 2012 | 03h11

Por vezes, o mito torna-se maior que o artista. Camille e Rodin, espetáculo que estreia hoje, visita as biografias de Auguste Rodin e Camille Claudel para retirar o véu em que estão há tanto tempo encobertos. Retoma os meandros da trágica história de amor em que se envolveram. Mas faz isso visando, sobretudo, à arte de cada um. "A intenção era reconstruir Camille antes que ela se tornasse essa figura mítica", observa Melissa Vettore, atriz que interpreta a escultora. Leopoldo Pacheco vive Rodin.

Escrita por Franz Keppler, a peça rememora os 15 anos em que os dois artistas viveram juntos e também o impacto que tal encontro teve sobre suas obras. "Ele sempre foi mais técnico. Ela mais apaixonada. Mas certamente não seriam os mesmos se não tivessem estado juntos", considera o dramaturgo.

A encenação evoca as esculturas - de nítido pendor sensual- criadas por ambos no período. Mas, ao invés de trazer reproduções ao palco, o diretor Elias Andreato preferiu colocar nos corpos e nas marcações dos intérpretes os gestos de esculturas como O Beijo (que Rodin compôs em 1887) e A Valsa (criação em bronze de Camille datada de 1895). "Hoje, falar de um amor tão profundo, pelo outro, pelo seu ofício, é um ato político", considera Andreato.

Para elaborar o texto, Kepler empreendeu uma vasta pesquisa, que incluiu a leitura de documentos, biografias e cartas. "Queria conseguir simplesmente contar essa história. Sem tomar partido, sem fazer julgamentos", diz ele.

Não é fácil manter-se em posição equidistante quando se trata de Camille e Rodin. Ela insiste em aparecer relegada à posição de amante desprezada, a mulher que enlouqueceu por amor. Há uma espécie de fascínio irresistível pela imagem da criatura frágil que padece nas mãos do homem impiedoso. Toda verdade, porém, tem seus matizes. "Não dá para olhar para os dois pensando em certo e errado", considera Kepler. "Acho que ela iria à loucura de qualquer jeito. Era uma artista inquieta. Nada a deixaria feliz, satisfeita."

Quando se conheceram, Camille tinha 19 anos. Rodin, 45. Ela era uma aprendiz habilidosa. Ele, um escultor que começava a ganhar fama: acabara de receber do governo a incumbência de criar a grandiosa Porta do Inferno. A inicial relação entre aluna e professor logo transformou-se em um rumoroso caso. Chegaram a viver juntos, mas ele nunca abandonou a primeira mulher, Rose. Com quem, aliás, só se casaria no fim da vida.

Há quem acredite na fidelidade de Rodin à sua companheira de juventude. Talvez valha a pena considerar também a ameaça que Camille representava: um talento capaz de equiparar-se ao seu.

Ao afastar-se do escultor, Camille toma uma atitude com grandes repercussões sobre seu estilo. Tenta desvincular-se da sombra do amante. Cria algumas de suas obras mais emblemáticas, como A Onda e Idade Madura. "Era importante deixar claro o seu percurso como artista. Antes de mais nada, há ali alguém que trabalhou muito", reitera Melissa.

No cenário, confundem-se os espaços do ateliê e do sanatório, onde a escultora francesa esteve internada por 30 anos. É nessa zona intermediária, entre a sanidade e a loucura, entre a arte e o amor desmedido, que Camille e Rodin se encontram. E se perdem.

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