Camille Claudel e os limites da loucura

Diretor fala sobre filmagens nas quais a atriz Juliette Binoche contracena com internos de uma clínica psiquiátrica

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2013 | 02h06

Havia grande expectativa no Festival de Berlim, em fevereiro, pelo novo filme de Bruno Dumont, Camille Claudel 1915. Pela primeira vez, o autor, um dos mais exigentes do cinema francês, competia na Berlinale e com um filme baseado numa personagem que já havia sido cinebiografada antes - por Bruno Nuytten, num filme estrelado por Isabelle Adjani. E mais - Dumont gosta de trabalhar com atores não profissionais e, desta vez, dirige Juliette Binoche. Ao Caderno 2, ele contou como tudo começou. O filme é a atração de hoje do Festival Varilux do Cinema Francês.

Juliette conta que a iniciativa de filmar com você partiu dela. Mas como chegaram a Camille?

Não é frequente que uma estrela como Juliette se ofereça para trabalhar num filme de um autor como eu. E ela aceitou todas as minhas condições - nada de estrelismo, teria de ganhar o que costumo pagar aos meus atores. Comecei a pensar no personagem que poderia lhe oferecer. Juliette é dançarina. E pinta. Não conseguia imaginar nada para lhe oferecer na área de dança, mas a pintura me interessa. Cheguei, então, à escultura e a Camille Claudel, numa fase específica do período em que esteve internada, em 1915.

Camille já havia sido biografada, com Isabelle Adjani. Não lhe assustava a comparação?

Meu cinema é tão específico que não se compara a nenhum outro. Quando lhe falei em Camille Claudel, a própria Juliette nunca fez qualquer referência à de Isabelle. Ela sabia que seria diferente. Eu havia lido a correspondência de Camille e Juliette, também. O que mais me impressionou, no isolamento do manicômio de Ville-Evrard, era a narrativa de sua solidão, a sensação de estar vivendo num inferno, entre pessoas que considerava horríveis. Camille não deixava de ser uma celebridade na sua época. Conviveu com loucos anônimos, abandonados pela família. Pensei que não seria tão absurdo confrontar Juliette com os não profissionais com que gosto de trabalhar.

E por que 1915?

A correspondência e o diário de Camille recriam uma rotina asfixiante, que não muda nunca no período em que esteve confinada pelo irmão, o escritor Paul Claudel. A grande perturbação é justamente o período que antecede a visita dele. Dramaturgicamente, não encontraria nada mais forte para investigar e retratar.

Os atores não profissionais são internos de um instituto psiquiátrico. Como foi confrontar uma estrela com eles?

Não foi tão complicado assim. Eles apresentam distúrbios mentais, mas muitos, senão todos, possuem a experiência de participar de encenações amadoras de teatro como terapia. Quando viveu entre os chamados "loucos", Camille era igual aos olhos deles, que não tinham a possibilidade de entender realmente o que ela era e representava. Essa situação se repetiu. As famílias dessas pessoas sabiam quem era Juliette, mas não elas. E Juliette ficou muito tempo convivendo com eles, como igual. É uma atriz que gosta de ir ao limite.

O tema de seu cinema é a ascese e Camille, após o sofrimento do reencontro com o irmão, não deixa de encontrar a dela. Era outro motivo para fazer o filme?

Com certeza. Toda a narrativa da experiência de Camille em Ville-Evrard é muito dolorosa, mas depois de 1915 há uma mudança de expectativa da parte dela. Camille dá-se conta de que nunca mais vai sair dali e aceita. Ela viveu mais 28 anos confinada, até morrer, em outra instituição, em 1943. O que eu queria retratar era a espécie de serenidade que parece ter encontrado.

Paul Claudel era um grande escritor, e católico, mas sua

falta de compaixão pela irmã é chocante. Como você encara o

que ele fez com ela?

Podemos apenas imaginar os motivos de Paul, e ele deixou indicações em seus escritos, mas acho que Paul representa uma arrogância muito francesa. Um grande intelectual, um humanista e, ao mesmo tempo, no plano pessoal, um homem refém dos próprios princípios. Esse pensamento xiita foi outra coisa que me levou a fazer o filme. Independentemente da religião, esse tipo de fundamentalismo é uma das tragédias contemporâneas. Em geral, o associamos só aos árabes, mas não é assim.

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