Camila Pitanga, sucesso na TV e requisitada no cinema

Atriz que é um sucesso no papel da Bebel de ´Paraíso Tropical´ fala ao Estado

Entrevista com

Luiz Carlos Merten, do Estadão

12 de julho de 2007 | 12h04

Aos 16 anos, Camila Pitangaexperimentou seu primeiro boom. Celebrada pela mídia, virou mitosexual e objeto de desejo de todos os machos do País. "Era umacelebridade", ela diz e coloca a expressão entre aspas porque,embora ainda não soubesse o que queria - era muito jovem -,Camila já intuía que aquilo não era legal. Filha de atores -Vera Manhães e o lendário Antônio Sampaio, que depois virouPitanga, figura emblemática do Cinema Novo, nos filmes deGlauber Rocha e Cacá Diegues -, ela sempre conviveu com a arte(o cinema) e a política, mesmo antes de seu pai casar-se com aex-governadora do Rio Benedita da Silva, a Benê. "A política nãoentrou na minha vida por causa da Benê", afirma. "Antes de elavirar minha madrasta eu já fazia campanha. Acima de tudo, somosamigas." O segundo boom veio agora, com o estouro da personagemBebel na novela Paraíso Tropical, de Gilberto Braga. Programamais visto da TV brasileira em junho, Paraíso Tropicaltransformou Camila na prostituta que, vinda de um lugarejo nolitoral da Bahia, começou a rodar bolsinha no Rio e hoje éamante de Olavo, o inescrupuloso personagem interpretado porWagner Moura. Bebel começou rampeira, vulgar, mas passou - aindaestá passando - por uma transformação. "Ela está vivendo seusonho de Cinderela", define Camila, que curte o sucesso dessapersonagem. Desta vez, o que o público e a mídia celebram não é sua- esplêndida, é bom ressaltar - aparência física, com aquelesolhos, aquela boca e aquelas curvas, mas o trabalho da atriz."Bebel não é uma prostituta caricata. Percebo isso porque tenhouma resposta muito grande do público de todas as idades. Osjovens, os idosos, as crianças, todos adoram a Bebel e suastrapalhadas, agora que ela está tendo de lidar com a etiqueta."Bebel e Ceci Camila sentiu, mais uma vez, o gostinho dessa nova fasede sua vida - e carreira - na terça-feira à noite. Hollywoodbaixou em São Paulo, mais exatamente no Shopping Eldorado, ondeocorreu a pré-estréia, para convidados, de Saneamento Básico -O Filme, de Jorge Furtado, que estréia na sexta da próximasemana, dia 20. Todo o elenco veio prestigiar - Fernanda Torres,Lázaro Ramos, Wagner Moura, Paulo José, Bruno Garcia e, claro,Camila Pitanga. Sua entrada foi de superstar, assediada pelopúblico e pela imprensa que queriam chegar perto "da Bebel". Foia maior muvuca. Como, para ela, trabalho é coisa séria, Camilagostaria de acreditar que Silene, a personagem que interpreta emSaneamento Básico, venha a merecer o mesmo carinho do público.E, se preparem, porque em agosto ela bate nas telas em outropapel de prostituta, mas Ceci, a dama da noite de Noel, O Poetada Vila, de Ricardo Van Steen, não tem nada a ver com Bebel. O filme de Ricardo van Steen focaliza a boemia do Rio,nos anos 30, a partir do lendário Noel Rosa. Camila faz Ceci, adançarina de um cabaré da Lapa que é a grande paixão docompositor. Numa cena já antológica do cinema brasileiro, Noel,interpretado por Rafael Raposo e já infectado pela tuberculose epela doença na boca, veste máscara para fazer amor comCamila/Ceci. Os dois mascarados entregam-se com verdadeira fúriaao prazer misturado de dor. Aguardem - "Ceci é muito diferenteda Bebel", diz Camila. "A Bebel vive uma trajetória ascendente.A da Ceci é descendente, num meio degradado." Ceci é maisintensa, mais forte, mais visceral. Parece mentira, mas Camilaconta que se preparou para o papel de uma maneira absurda. "Naverdade, me preparei ao mesmo tempo para dois papéis - a dama danoite de Noel e a atriz de Porto Alegre em Sal de Prata (deCarlos Gerbase). Me preparava para um papel no Rio, tomava umavião e ia a Porto Alegre fazer os preparativos para o outro.Uma loucura." Sal de Prata foi produzido pela Casa de Cinema dePorto Alegre, a mesma produtora de Saneamento Básico - O Filme. "Adoro o pessoal da casa. É muito bacana. Além de talentosos,eles são muito legais, muito inteligentes. Fazem um cinema deturma, distante do Rio e de São Paulo e obtêm reconhecimento, oque é melhor ainda." Ela considera Jorge Furtado um dosdiretores mais lights - relaxado no bom sentido - com quemtrabalhou. "O Jorge não se estressa. Ele se prepara muito, faz ofilme na cabeça antes de passar pela câmera. A gente ensaia,prepara tudo e, na hora de filmar, ela não grita ‘Corta!’. Agente diz o diálogo e ele continua filmando. Há sempre muitaimprovisação no rabinho das cenas filmadas pelo Jorge, o que ésempre muito estimulante para o ator. Às vezes ele usa, às vezesnão, mas o importante é que todo mundo fica descontraído no set.O ato de filmar é prazeroso, não uma angústia."´Saneamento Básico´ Saneamento Básico - O Filme. Que raio de título éeste? Num certo momento, todo mundo tentou fazer com que odiretor mudasse o título, sob a alegação de que ninguém iriasair de casa para ver um filme assim chamado. Jorge, como pai dacriança, bateu pé. O interessante é justamente o estranhamento -saneamento básico refere-se a um problema endêmico dasdesigualdades sociais no Brasil. Uma parcela muito grande dapopulação ainda não tem esse básico, esse mínimo que é condiçãoda cidadania. E, por outro lado, o filme representa o limite dasofisticação e do desenvolvimento tecnológico. Entre os doisextremos - a ausência de saneamento básico e o filme -,constrói-se a visão social de Jorge Furtado. Camila concorda,mas diz que o filme também pode ser visto como uma piada muitodivertida. "Existem camadas de leitura. Cada um vai tirar o quequiser, ou puder", ela diz. No filme, um grupo quer resolver oproblema dessa cidadezinha de colonização italiana, encravada naserra gaúcha. Eles querem saneamento básico, a prefeitura nãodispõe de recursos, mas existe uma verba do MinC, o Ministérioda Cultura, para a realização de um vídeo. Eles resolvem usar odinheiro do vídeo para construir a fossa. Mas como se produzcinema, como se faz um vídeo? "Silene é uma personagem legal, muito mais rica do queparece. Ela ingressa nesse mundo de fantasia do cinema edescobre outra coisa, um outro mundo que lhe produzdeslumbramento." Silene vira, em seu mundinho, uma celebridade -‘a’ gostosa, aquilo que Camila decidiu não ser, há dez anos.Quer dizer, com aquele corpão ela sabe que não consegue deixarde ser objeto de desejo, mas isso não lhe basta. O trabalho comoatriz é levado muito a sério. "Isso é uma herança de meu pai.Ele foi um farol, uma referência não apenas para mim, mas para oRocco, também." Camila refere-se ao irmão, Rocco Pitanga, também ator deTV e cinema. No início da semana passada, o repórterencontrou-se com Rocco no morro do Cantagalo, no Rio, no set donovo filme de Breno Silveira, Era Uma Vez. Rocco falou comimenso carinho da irmã, disse que seu sucesso é merecido, é oreconhecimento a um trabalho de atriz. Ela retribui - "Roccoainda vai ter o grande estouro dele. É uma questão de tempo,espere para ver."Sem parar Carioca, Camila nasceu em Botafogo, mas rodou toda aCidade Maravilhosa, como gosta de dizer. Morou no Leblon, emJacarepaguá, na Barra, no Leblon de novo, no Jardim Botânico.Numa certa época, quando seu pai começou a namorar com Benê, acasa em Jacarepaguá passou por uma reforma e ficou inabitável.Camila e Rocco foram morar na casa de Benê, no Morro de ChapéuMangueira. Até hoje, se você vai ao morro - onde foi filmado oainda inédito Cidade dos Homens -, os moradores apontam comorgulho ‘a casa da Camila’, que já foi um deles. Camila pode termorado no morro, mas nunca foi uma favelada, camada da populaçãopela qual ela tem o maior respeito, é bom ressaltar. Mas aexperiência reforça um lado Cinderela que termina servindo àpersonagem de Paraíso Tropical. "Desde a primeira sinopse, o Gilberto (Braga) já haviacriado esse desenho para a personagem. A Bebel ia ascender,passar por um processo de reeducação, ficar chique." Uma cenaemblemática dessa fase há mais ou menos duas semanas, quandoBebel ganhou dinheiro de Olavo para ir às compras, mas asfuncionárias da butique se recusaram a atendê-la. Você deve selembrar da cena de Julia Roberts em Uma Linda Mulher. GilbertoBraga tem escrito belas cenas para Camila Pitanga. "Já estavamprevistas na sinopse", ela ressalta, minimizando o estouro dapersonagem. Gilberto Braga não está simplesmente atendendo a umademanda do público por mais Bebel. A previsão é de que a novelavá até outubro. E depois? "Preciso descansar", anuncia Camila. Nos últimos anos, seu nome tem sido trabalho. Ao mesmotempo que se preparava para os dois filmes - Sal de Prata e OPoeta da Vila -, ela terminava a faculdade, no Rio. Formou-se ehoje é, com honras, bacharelanda em teoria teatral. Você podediscutir a teoria do teatro com Camila - a tradição da commediadell’arte, que Jorge Furtado homenageia em Saneamento Básico -O Filme. É uma mulher de gosto refinado. Assistiu há pouco, emDVD, a Hiroshima, Meu Amor, de Alain Resnais, e ficou chapada."Que texto maravilhoso! Você não acha que dá uma peça de teatro?Estou louca para fazer teatro." Por que não Hiroshima, por quenão Duras? O olho brilha. Camila precisa de férias, mas ... quemsabe?

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