Camerata Fukuda leva Stravinski à Igreja

Celso Antunes rege concerto que tem também Poulenc

JOÃO MARCOS COELHO, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2012 | 02h11

Quando comemorou seus 20 anos, a Camerata Fukuda, formada por 20 instrumentistas de cordas, gravou um CD, em 2010, para o selo Paulus, ao qual imprimiu a marca da violinista Elisa Fukuda e do regente Celso Antunes, seus fundadores: fazer do grupo um laboratório para estudantes talentosos se aperfeiçoarem e alçarem voos próprios (muitos hoje fazem brilhante carreira internacional, como Antunes); e cuidarem de dois aspectos fundamentais da prática musical: atenção na escolha do repertório e disciplina na preparação dos programas, sobretudo quando trabalha com Antunes, hoje radicado na Holanda e regente assistente da Osesp.

Naquele CD, conviviam sucessos como dois concertos de Vivaldi e a Sinfonia Simples de Britten com um curioso "Outono" das Quatro Estações no Japão, de Masaaki Havakawa; o "novo" ficava ainda por conta do resgate de uma obra raramente executada hoje em dia, Os Quatro Temperamentos, de Hindemith.

Pois hoje, em concerto na Igreja Nossa Senhora de Fátima, alto do Sumaré, o grupo, com Elisa e Celso e o solista convidado Marcelo Giannini no órgão, percorrerá, às 21 h, um repertório tão diferenciado quanto o do CD de dois anos atrás. Começa com a abertura de Dardanus, "tragédia em música", como se costumava chamar as óperas à francesa no século 18, que Jean-Philippe Rameau compôs e estreou em 1739. Peça curta, que em menos de 5 minutos mostra o que era a "abertura à francesa", fórmula inaugurada por Lully: um início solene, com notas pontuadas, seguido de um fugado allegro vibrante.

Na prateleira das obras raramente tocadas, o elegante Concerto para órgão, orquestra de cordas e timbales em sol menor, de outro francês, Francis Poulenc. Cerca de 25 minutos de música barroca escrita com olhos do século 20, que integram vários andamentos. Um Igor Stravinski neoclássico, de 1927, igualmente de olho no século 18, conclui o concerto: Apollon Musagète, para cordas. Como o título diz, o tema é o deus Apolo, mestre das musas. O ritmo pontuado da abertura de Rameau volta a uma posição central; Stravinski brinca com ele em sua meia hora de duração. E surpreende: é música diatônica, cristalinamente redonda. Os contrastes ficam por conta da dinâmica. O russo camaleão, aliás, confessou a Robert Craft que pensou aqui nas sonoridades da corte de Luís XIV.

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