Camerata encerra temporada em alta

Em seu último e muito bem-sucedido concerto do ano, sexta-feira no auditório do Masp, a Camerata Aberta encerrou sua primeira temporada como único grupo permanente dedicado à prática da música contemporânea com uma autêntica declaração de amor ao movimento espectralista francês.

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2010 | 00h00

Desta vez, após uma dezena de concertos ao longo do ano construídos em torno do chamado eixo espectral, programaram-se obras de dois dos fundadores do movimento, nos anos 70, em Paris: Tristan Murail e Hugues Dufourt. Vieram também três excelentes músicos do L"Itinéraire, grupo parisiense porta-bandeira do movimento nascido na década de 70 do século passado. Desse modo, abraçou-se de vez o credo espectral como plataforma estética da Camerata.

Claro que é importante conhece-lo e saber que a partir da análise do som via computador pode-se estabelecer novos modos de se criar música em função tão-somente do som, sem nenhum outro parâmetro.

L"Afrique d"après Tiepolo, de Dufourt, emprega acordes sustentados a cada compasso, que são decompostos ao longo de cada tempo, formando novos aglomerados sonoros. Mémoire/Érosion, de Murail, vai mais longe: faz superposições, com loopings, de sons, que aos poucos vão se deformando, tendo como eixo a trompa-solo voltada para os próprios músicos.

Diastema, de 2001, é assinada pelo alemão Oliver Schneller, ex-aluno de Murail, representante da segunda geração espectralista. O trio de músicos franceses interpretou um clássico do século 20, o húngaro György Ligeti, com seu trio para trompa, piano e violino.

É importante ter um grupo estável dedicado à música contemporânea? Sim, sem dúvida. Mas seria fundamental colocar um plural no conceito de música contemporânea. Afinal, faz um bom tempo que a hegemonia das elites radicais francesas e alemãs sofreu irreversível erosão. Espectralismo é apenas uma entre muitas outras propostas contemporâneas.

Se desejar mesmo espelhar em seu trabalho as múltiplas faces das músicas contemporâneas, a Camerata precisará abrir-se esteticamente. OK, já mapeamos exaustivamente Paris e demos umas escapadelas pela Alemanha. Que tal agora mostrar o que se faz hoje em "nuestras" Américas? Há vida inteligente em nosso continente também. E não estou falando só de Brasil.

Militância pelas músicas novas, vivas, sim; proselitismo por uma corrente apenas, definitivamente não.

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