Camerata aberta, o sentido da perfeição

Camerata aberta, o sentido da perfeição

Concerto de estreia do novo grupo foi uma mostra de rigor, talento e paixão

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2010 | 00h00

Vivemos num tempo em que não é mais necessário instalar um fosso entre as criações musicais vanguardistas, revolucionárias, de um lado; e as reacionárias, tonais, de outro. É uma das conquistas da primeira década do século 21. Outra inutilidade é invalidar o passado para privilegiar o presente. Pois, cada uma a seu modo, valem as músicas atuais que desafiam nossos ouvidos e mentes.

Mostrar esta realidade foi a maior virtude do concerto de estreia, anteontem no Sesc Vila Mariana, da Camerata Aberta, o primeiro grupo brasileiro estável dedicado à música contemporânea. Com 15 músicos, sua existência já é uma vitória. E na estreia fez uma saudável e despreconceituosa declaração de princípios.

É maravilhoso assistir a músicos talentosos concentrados, tocando com prazer, sentindo-se desafiados a se superar num repertório que é no mínimo dificílimo. Adorno já dizia que a música nova não era inacessível; só era mal tocada. Schoenberg percebeu isso antes - e montou a Sociedade de Execuções Musicais Privadas entre 1918 e 1921 em Viena, para mostrar ao público a música nova tocada com o mesmo rigor que se aplica a Bach, Beethoven e Brahms. Obrigava os músicos a fazerem até 40 ensaios - e ele assistia ao ensaio final e vetava a obra se considerasse a execução menos que perfeita.

Esse sentido de perfeição é meta que os músicos só buscam se verdadeiramente têm paixão pela criação contemporânea. Foi emocionante ver estampada essa paixão nas expressões dos integrantes da Camerata. O violoncelista Dimos Goudaroulis é quase um ator tocando; o clarinetista Luis Afonso Montanha, o violinista Martin Tuksa, o fagotista Fábio Cury, os pianistas Horácio Gouveia e Lidia Bazarian, a flautista Cássia Carrascoza. Não dá para citar todos - mas o grupo inteiro estreou mostrando armas poderosíssimas para se transformar, a curto prazo, no grupo referência da música contemporânea no País.

Agenda. Outra qualidade da direção artística de Silvio Ferraz, idealizador do grupo, e que o aproxima da agenda iluminista de Schoenberg: o vienense fez questão de mostrar o novo embutido na música que pretendia ter ultrapassado (lá se tocava Bach além de Ravel, Mahler e Debussy, entre outros). A agenda da Camerata também é inclusiva.

O primeiro concerto foi prova dessa atitude. O repertório trafegou do alfa ao ômega. Na primeira ponta, a Arte da Fuga de Bach, visionária obra do século 18 que não prevê sequer instrumentação em sua hipermodernidade, executada em formação de quarteto de cordas. O ômega, ou os dias atuais, mostrou um verdadeiro caleidoscópio, como gosta de qualificar Almeida Prado: obras chaves de dois importantes criadores contemporâneos, Talea (ou a máquina e o matagal), do francês Gérard Grisey; e a formidável Thallein do grego Iannis Xenakis, da qual participaram todos os integrantes do grupo. Mas a Camerata não esqueceu que é brasileira, com a adocicada, villa-lobiana e belíssima Cismas de Marisa Rezende; e a densa e antenada Araés de Roberto Victorio.

O regente convidado para os três primeiros programas, o ótimo francês Guillaume Bourgogne, com certeza fará desabrochar uma sonoridade característica desse grupo de músicos, a um só tempo talentosíssimos e perdidamente apaixonados pela música do nosso tempo.

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