Camerata aberta, genial e refinada

Grupo fez na quarta-feira o melhor concerto de sua curta trajetória

Crítica: João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2010 | 00h00

Camerata Aberta. Entre os pontos altos da apresentação está a virtuosidade do percussionista francês Florent Jodelet

 

 Depois de romper estrepitosamente com a música convencional que utiliza instrumentos logo após a Segunda Guerra Mundial, a neue musik colocou o som numa mesa de cirurgia, buscando apreender-lhe a essência. Música concreta, eletroacústica ? vários outros adjetivos justificavam a guinada. As dissecações levadas a um radicalismo cada vez mais hermético abriram brechas pelas quais, aos poucos, sem grande alarde, os instrumentos convencionais voltaram a frequentar as obras dos grandes nomes da vanguarda a partir dos anos 60. O quarto concerto da Camerata Aberta, realizado na quarta-feira, no Sesc Vila Mariana, foi, em sua curta trajetória, o mais bem engendrado. Contou, em obras compostas nas três décadas entre 1966 e 1996, esta curiosa e sintomática história do retorno dos instrumentos convencionais à cena contemporânea.

É como se os compositores redescobrissem os instrumentos, agora segundo uma ótica inovadora: em vez de dissecá-los, colocaram um a um em situação de performance-solo. Não por acaso, as 16 Sequenzas do italiano Luciano Berio cobrem quase meio século de sua trajetória, de 1958 a 2004; outro italiano, Giacinto Scelsi, optou pelas obras para instrumentos-solo depois de um silêncio de quatro anos, na década de 50. O coreano Isan Yun brincou em 1971 com o binômio Oriente Ocidente... também numa peça para oboé-solo. Peça difícil, que teve interpretação empenhada de Alexandre Ficarelli. Nuits, de Scelsi, cansa, em suas duas partes, apesar do talento de Pedro Gadelha no contrabaixo. Mesmo o contraponto de Franco Donatoni, no fim da vida, em 1996, entre o fagote de Fábio Cury e a trompa de Nikolay Genov, soou datado.

O trombonista Carlos Freitas teve melhor sorte. A Sequenza V de Berio explora os recursos do instrumento com humor e genialidade. Tanto quanto Philippe Manoury, ex-aluno de Michel Philippot (em Paris e em São Paulo), hoje com 58 anos, que faz de seu Le Livre des Claviers um genial exercício de exploração do fascinante universo do vibrafone. Ouvimos apenas um trecho ? e este foi um dos pontos altos do concerto, também pela virtuosidade do percussionista francês Florent Jodelet.

Três peças com regente. Como ensina Pierre Boulez num DVD recente a propósito de seu trabalho no Festival de Lucerna, é preciso formar regentes com experiência efetiva em música contemporânea para elevar-se o padrão dos concertos. E, para isso, aconselha aos bolsistas de Lucerna que pratiquem regendo mesmo pequenos grupos camerísticos.

Eduardo Leandro, mineiro de Belo Horizonte, segundo regente convidado da Camerata, acumula ao mesmo tempo as funções de professor de percussão no Conservatório de Genebra, na Suíça, e as aulas e regência do grupo de música contemporânea na Universidade de Stony Brook em Nova York. Abriu com a estreia mundial de dois arranjos/orquestrações refinadíssimos de Eduardo Guimarães Álvares para dois madrigais de Carlo Gesualdo, compositor da passagem dos séculos 16/17.

É interessante como Luciano Berio fica ainda mais interessante quando posto ao lado da música de Pierre Boulez. Claro, Dérive I, de 1984-86, para sexteto instrumental, é peça rigorosamente construída, que no entanto jamais nos deixa indiferentes, etc., etc. Isso não é suficiente para contrapor-se à vivacidade da veia criativa de Berio, cativante com sua Ricorrenze, de 1985-87. Foi um presente de aniversário do italiano para o francês em seus 60 anos. E brinca com alguns elementos de Dérive I, embora não abdique de finíssimos jogos de timbres e contrapontos ariscos que deixam nossos ouvidos em suspenso o tempo todo.

O saldo deste quarto concerto da Camerata Aberta é altamente positivo ? tanto nas performances individuais quanto nas coletivas. O grande teste para o grupo, no entanto, será em 5 de julho, no Festival de Inverno de Campos do Jordão, quando, sob comando de Edu Leandro, interpretará a Sinfonia de Câmara, de Arnold Schoenberg.

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