Camerata aberta em noite exemplar

Uma hora e meia de música, um arco sonoro iniciado com o bizarro ragtime de Charles Ives e concluído com o mambo (?) do porto-riquenho Roberto Sierra, com direito a pitadas de música chinesa politicamente engajada e um microrrecital de piano. Depois da inexplicável ausência no Festival de Inverno, em julho, a Camerata Aberta reapareceu em grande forma anteontem, no Sesc Vila Mariana, em concerto exemplar nesta temporada difícil para o grupo, que ainda vive sob ameaça de extinção em 2012.

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2011 | 00h00

Ficou evidente a impressionante vitalidade da música norte-americana. Esse tipo de oxigenação constante proporcionado pelos concertos da Camerata impulsiona a criação musical brasileira. Aliás, mais justo seria dizer que ela já modificou nossa cena. Os compositores se sentem mais estimulados a criar e o público tem chance de acompanhar a música de seu tempo.

Joel Sachs, o veterano regente e pianista americano convidado para Contos, concerto-panorama das músicas de seu país, brilhou tanto no pódio quanto no seu instrumento. Fez até um microrrecital com peças de John Cage (In a Landscape), Milton Babbitt (Playing for Time) e Henry Cowell (Tiger), que foi da cageana postura zen aos clusters desbragados, com pit stop na música serial.

Ficou claro que a criação não europeia não pode prescindir das músicas populares, mesmo na criação experimental (mas jamais deve deixar-se subjugar por elas). Ives, o pioneiro, e Sierra, o porto-riquenho de 58 anos, provam, como Gilberto Mendes já cansou de mostrar em suas obras, que é possível criar música nova com fragmentos e células estruturais populares sem ser banal. Em Four Ragtime Dances, Ives faz o ragtime ajoelhar-se e rezar com hinos evangélicos, enquanto Sierra, em Cuentos, injeta harmonias moderníssimas num mambo bizarro que tem até música criada com contornos das nuvens no céu. Ambos muito bem-sucedidos, assim como, aliás, a chinesa Du Yun, de 34 anos, com a politicamente engajada Vicissitudes III, citando poemas escritos na prisão por dois prêmios Nobel detidos por motivos políticos: o da Paz chinês Wang Dan, pivô das manifestações da Praça da Paz Celestial de 1989; e o de Literatura nigeriano Wole Soyinka. Impossível não se impactar com o poema recitado em mandarim emoldurado pelas modernas sonoridades de Yun.

Entre as duas peças brasileiras, surpreendeu a excelente Zonder Titel, de Martin Herraiz, mas Canzone per Suonare a Tre, de Rogério Costa, quase se afogou na música popular (ao contrário de Ives e Sierra, que "domaram" os furacões ragtime e mambo).

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