Camerata Aberta em concerto pedagógico

ÓTIMO

Crítica: João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2010 | 00h00

O segundo concerto da Camerata Aberta, grupo de música contemporânea, foi no domingo, no auditório do Masp. Como todo projeto de música nova, possui tinturas iluministas. Por isso promoveu na tarde de sexta-feira, no local, um concerto didático com o mesmo repertório. O conceito que orienta esse tipo de ação pedagógica é o de que nossos ouvidos não estão preparados para as músicas do nosso tempo. Raciocínio correto, já que a vida musical convencional de concertos gira sempre em torno do passado.

A estratégia é correta, pois, afinal, cada obra programada estabelece universos inteiramente próprios e diferenciados. Ou seja, cria mundos novos, com regras, sintaxe e vocabulários também novos. Como estimular a plateia a interessar-se por músicas que não consegue sequer acompanhar a evolução?

Tarefa dificílima, que Sérgio Kafejian tentou realizar. Contou, é verdade, com um público cativo, composto por mais de uma centena de estudantes de música da própria Santa Marcelina/ULM, trazidos de ônibus. Falava, portanto, com uma plateia de músicos. Isso facilitou, de um lado, seu trabalho; mas, de outro, ele falava com sua tribo, e não com um público heterogêneo como acontece nas salas de concerto em geral. Talvez por isso mesmo, o chantilly ou refresco convencional do programa - o arranjo para grupo de câmara do célebre Prélude à l"après-midi d"um Faune, de Debussy - tenha ficado de fora do concerto didático.

Entre Extremos - título do concerto - trouxe de um lado o citado Debussy e pioneiros da música do século 20, como Charles Ives (belíssima leitura da instigante Pergunta Sem Resposta, com boa distribuição dos músicos pelo espaço) e Edgar Varèse (outra interpretação excelente, desta vez de um ícone da vanguarda, Octandres). As três são peças já assimiladas e integradas, compostas respectivamente em 1894, 1806 e 1923.

A parte mais importante do concerto ficou com três peças escritas nos últimos cinco anos: o italiano Salvatore Sciarrino, de 63 anos, compôs Archeologia del Telefono, em 2005; Dona Letícia, de Silvio Ferraz, diretor artístico da Camerata, é de 2008; e Sobre Paranambucae, de Sérgio Kafejian, coordenador do grupo, é uma peça deste ano que retrabalha cameristicamente uma obra já apresentada anteriormente no Festival de Música nova com a Orquestra de Santos.

O novíssimo, explicado de menos. Todas as peças foram precedidas de comentários. O ideal, claro, seria comentar todas as obras dando exemplos musicais. Não sei por que, Ives e Varèse, cujas obras estão gravadas e são conhecidas há praticamente um século, mereceram comentários extensos. Mesmo a notável Archeologia del Telefono teve explicação farta (neste caso, procedimento adequadíssimo). E justamente as duas peças que precisavam de explicações mais detalhadas - porque são as mais recentes e desconhecidas - receberam pinceladas insuficientes.

Apesar desses deslizes, musicalmente a tarde foi suculenta. A peça de Sciarrino é antológica, obra-prima que deveria receber novas interpretações públicas da Camerata. Quase à beira do silêncio, que sabe explorar como raríssimos, Sciarrino desconstrói o celular como elemento desagregador, que trava a comunicação entre as pessoas ao banalizá-la. Porque estamos 24 horas por dia disponíveis no celular, perdemos nossa identidade. Nem sempre, diz Sciarrino (que, claro, não usa celular), a tecnologia é bem-vinda. As explicações, que envolveram o regente francês Guillaume Bourgogne, Kafejian e fartos exemplos musicais, foram suficientes para entender a obra.

A lamentar as econômicas "dicas de audição" sobre as peças brasileiras. Ambas se aplicam em amplificar como sob um microscópio sons do dia a dia (do violino barroco da mineira dona Letícia, no caso de Ferraz, nos sons da natureza dos Lençóis Maranhenses, na Lagoa de Marechal Deodoro e nas igrejas de Olinda, no caso de Kafejian). A ideia, excelente, é retirar dos sons seu significado convencional e transformá-los em matéria-prima sonora abstrata para a criação musical. Ferraz já se firmou como um dos mais instigantes criadores brasileiros contemporâneos; e Kafejian surpreende pela qualidade e densidade ao retrabalhar a sua peça.

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