Câmera que vai a toda parte

Tributo de Jane Weiner a Richard Leacock resgata material colhido por 40 anos

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2012 | 07h45

Tem cara de work in progress. Em dezembro, a diretora Jane Weiner ainda buscava, na internet, angariar recursos para a finalização do tributo a Richard Leacock. O filme estava apontado para estrear em fevereiro nos EUA, quase um ano após a morte do documentarista (em março de 2011) que foi um grande nome do cinema direto - do cinema verité - na América. Ricky on Leacock, Ricky sobre Leacock, começou a ser gestado no começo dos anos 1970. Naquela época, Jane era aprendiz. Egressa de uma família de fotógrafos e cineastas experimentais, ela queria trabalhar com a câmera, mas foi desencorajada por seu professor de cinema, que dizia que era um material pesado, inadequado para o manuseio de uma mulher. Ela perseverou, e o próprio Leacock, que virou seu mentor, dizia que Jane nunca seria uma documentarista, se não trabalhasse com a câmera.

Ricky on Leacock reúne material que você nunca viu. Jane sabia que Leacock já era uma verdadeira instituição nos EUA, mas se surpreendeu ao acompanhar o cineasta na Europa e descobrir que, em Paris, ele era venerado por Henri Langlois, o lendário diretor da Cinemateca, e também por Jean-Luc Godard e Chris Marker. Quando Jane lhe propôs segui-lo com uma câmera, Leacock mostrou-se reticente. Mas ao aceitar que ela o fizesse, impôs duas condições - não queria saber de entrevistas e o equipamento de filmagem deveria ser o menor possível. Jane começou a filmar em super-8 e isso depois lhe criou problemas - justamente o de passar o material colhido há 40 anos para o suporte digital.

Condensar essas quatro décadas de investigação/convivência em apenas 89 minutos de filme foi certamente um desafio que a diretora se impôs. O resultado talvez seja mais atraente para pesquisadores e/ou historiadores, mas é interessante ver a câmera seguir o homem que virou uma lenda do documentário. Vale justamente lembrar que, embora a popularização do documentário como 'gênero' (linguagem?) seja uma coisa relativamente recente - e ele ocupou seu nicho do mercado -, sempre houve documentário, e isso desde os primórdios do cinema. A mídia começou documentária com os Irmãos Lumière, que documentaram a chegada do trem à estação e a saída dos operários da usina. Só depois, com Georges Méliès e sua Viagem à Lua, o cinema começou a sonhar (e virou ficção).

Martin Scorsese capta esse duplo movimento em A Invenção de Hugo Cabret, situando numa estação de trens seu resgate de um pioneiro inspirado em Méliès. Jane Weiner reside atualmente na França. Ela desenvolve hoje dois projetos - um livro sobre a realização de Primárias, o cultuado documentário de Richard Leacock sobre a campanha presidencial de John Kennedy, e um documentário com o sugestivo título de La Caméra Passepartou. The Camera Goes Everywehere. A câmera vai a toda parte. Já é o que ela faz seguindo Leacock na atração de hoje do É Tudo Verdade.

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