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Câmera de ouro

Estreia 'Las Acacias', filme pequeno mas tão grande que venceu em Cannes

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2013 | 02h14

Em visita à redação do Estado, quarta-feira, Pablo Giorgelli disse que seu grande sonho sempre foi estrear o filme que lhe deu a Caméra d'Or no Festival de Cannes - Las Acacias -, no Brasil e no México. O repórter lhe observou que só esperava a estreia para colocar Las Acacias na sua lista de melhores do ano. Os dois desejos convergiram e se concretizaram. Las Acacias, que estreia hoje, pode estar tendo um lançamento pequeno, mas não se iluda - é realmente um grande filme, e um dos melhores do ano.

Há dois anos, em Cannes, o cineasta argentino já contara a gênese de seu pequeno (pelo tamanho) grande (pela qualidade) filme. No fim dos anos 1990, seu pai estava doente e ele, de uma forma que nem consegue explicar, se distanciou da família, largou a mulher com quem vivia na época, perdeu o emprego. Muitas mudanças - radicais - e todas ao mesmo tempo. Giorgelli não sabia mais quem era nem o que queria. Às vezes, é preciso ir ao fundo do poço para buscar uma ascese. Morrer, no sentido figurado, para renascer.

A morte do pai reaproximou-o da família. Ele virou outro homem. Começou a sonhar com o pai que poderia ser. E foi nesse momento que Las Acacias começou a nascer. "A gênese de um filme é sempre complicada e muitas vezes, senão sempre, você não tem consciência dos motivos que tornam certas histórias tão necessárias. Só com o tempo, depois, você consegue avaliar objetivamente. Las Acacias nasceu da minha confusão. Sentia uma dor imensa, e solidão. Tinha necessidade de proteção. Queria, desesperadamente, que alguém tomasse conta de mim. Descobri, mais tarde, que era uma fase e eu é que tinha de superar tudo isso. Ninguém pode cuidar de você para sempre, você tem de se cuidar, valorizar."

O filme nasceu muito simples e concentrado. Basicamente, três personagens que concentravam, ou desdobravam, os sentimentos confusos que devoravam o cineasta. A imagem inicial, que o perseguia - uma mulher entre bagagens, com uma criança. Foi assim que nasceu a história de Las Acacias - uma mulher, portando um bebê, pede carona. Um motorista de caminhão a carrega. Quase não se falam, mas começa uma comunicação, quem sabe um envolvimento. "Gostaria de dizer que, na fase em que estava, o roteiro de Las Acacias surgiu como uma libertação, que foi tudo muito fácil, mas não foi. Foi preciso muito trabalho. Sem a colaboração de Salvador Roselli no roteiro, não creio que tivesse logrado. Eu precisava de alguém de fora, que me ajudasse a ordenar sentimentos e sensações que eram muito íntimos."

Um filme sobre nada, mas que fala sobre (e engloba) tudo. A estrada como metáfora da vida. A família. Giorgelli conta que o filme foi feito com economia de meios. Ele apostou tudo no elenco - "Queria, em nome da veracidade, que o caminhoneiro fosse interpretado por um caminhoneiro de verdade. Cheguei a selecionar alguns, mas comecei a perceber que o personagem tinha cenas muito intensas, e que só um ator poderia transmitir toda aquela carga emocional. Quando encontrei Germán de Silva percebi que minha busca havia acabado. Era ele. A mulher sabia, desde logo, que teria de ser uma atriz. Mas testei algumas não profissionais. Selecionei Hebe Duarte, uma paraguaia que me parecia ser a personagem, tal como a via. Hebe já tinha alguma experiência e optei por ela, mesmo que não fosse uma pro. Estou muito contente com meu elenco. Até o bebê dá a impressão de representar, e bem".

Giorgelli conta que a fase da escrita é a mais difícil, ou sofrida. Ele gosta dos desafios da filmagem - um filme feito na estrada, com equipe pequena, apresenta problemas que é preciso superar todos os dias, a toda hora -, mas o momento preferido, quando o filme realmente começa a nascer é a montagem. "Trabalhei com Maria Astraukas, que é minha companheira na vida. Ela esteve ao meu lado durante toda a fase do roteiro, sabia o que esse filme representava para mim. Foi uma grande parceira, e também é muito sensível e direta. Quando divergíamos na edição, tínhamos de argumentar. Esse exercício de ouvir o outro, e de convencer o outro, foi muito rico para os dois. Creio que nos fortalecemos como artistas, e como casal."

Ele trabalha atualmente num novo filme. "Já escrevi um primeiro tratamento, mas ainda não estou satisfeito. Sei aonde quero chegar, mas ainda não vejo o filme que quero fazer. Preciso chegar a essa definição para poder trabalhar com Salvador (o roteirista)." Os últimos meses foram muito intensos para Giorgelli. "Sou pai recente, o que de alguma forma me faz vivenciar a experiência de Germán no filme. Nos primeiros seis meses não conseguia pensar nem fazer nada. Vivi, vivo ainda a paternidade com muita força. É uma forma de reatar com meu pai", reflete.

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