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João Wady Cury
Palco, plateia e coxia
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Callas vive e morre pela boca

O mundo masculino, excessivamente masculino, perseguia Callas de forma implacável e covarde

João Wady Cury, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2021 | 03h00

Temperamental, linda e inigualável, Maria Callas, em um janeiro como este, 1958, deu as costas e saiu andando do teatro em Roma logo após o fim do 1.º ato de Norma, de Bellini. Não era pouca coisa. Na plateia, o presidente italiano e engalanados de primeira e segunda hora se apinhavam para ver a então maior soprano de todos os tempos. E mais uma vez Callas, como naquele dia, reforçava a fama que a acompanhou até a tumba.

A ópera não é buffa

Callas pagou o pato por ser mulher naquela metade do século passado. E mais, a melhor e mais famosa no que fazia. Claro, podia piorar. Era amante, apaixonada em praça pública, por um homem casado, Aristóteles Onassis – um dos mais ricos do mundo, mas este saiu bonito na foto, comme il faut. Largou Callas e saiu com Jacqueline, então Kennedy, a tiracolo. Assim nasceu Jackie O. Esse mundo de então, masculino, excessivamente masculino, perseguia Callas de forma implacável e covarde até nos programas de entrevista, que a emparedavam de forma grosseira sobre seu destempero em situações públicas e privadas (youtu.be/KnrDb5c7BAg). A música, tadinha, ficava em segundo plano. Claro, há exceções, como a conversa com Luchino Visconti, que a dirigira em óperas, no programa de Pierre Desgraupes, na tevê francesa (youtu.be/NSGJVkonOks). 

 

Solfeja mas não cai 

É possível ficar longe de tudo isso e decidir se deliciar com a voz e a imagem da diva nova-iorquina, nascida de família grega (bit.ly/3cm5DFL). Sim, sempre os gregos, como água, por todos os lados. Somos ilhas de felicidade ao imaginar Callas cantando em São Paulo e no Rio, em 1951, ainda que na primeira noite ela alegasse indisposição e fosse substituída. A peça? Norma, de Bellini. Mas depois tudo correu bem, acreditem, e Callas debulhou corações de viventes paulistanos e cariocas. Para o romance entre Callas e Onassis há o livro de Nicholas Gage (não confunda com o arremedo de ator, por favor), Greek Fire (http://amzn.to/2YkCkuY). Aliás, quando começou a amealhar dólares para sua fortuna Onassis negociava tabaco com Brasil e Argentina. Destinos cruzados. 

 

Libertação

Nas próximas semanas, é dada a liberdade a quem de direito desta presença, lançando mão de prerrogativa legal para o gozo de 30 dias em caverna privada.

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DO INFANTIL ‘ZIIIM’ E DE ‘ENQUANTO ELES CHORAM, EU VENDO LENÇOS

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