Callas na Broadway

Peça flagra a soprano no ocaso da carreira, com a voz frágil, mas majestosa, dando aulas na Julliard entre 1971 e 1972

Anthony Tommasini, do The New York Times, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2011 | 00h00

Master Class, peça de Terrence McNally, escrita em 1995, foi inspirada nas famosas master classes ministradas por Maria Callas entre 1971 e 1972 na Julliard School. Foram 23 sessões de duas horas, ocasião em que ela trabalhou com 25 estudantes previamente selecionados entre 300 jovens cantores.

Mas na peça, encenada agora com muito sucesso na Broadway, no Samuel J. Friedman Theater, há muitos prolegômenos e alvoroço em torno da personagem Maria Callas, representada por Tyne Daly, até o momento em que os alunos começam realmente a cantar.

Até aí, o foco da atenção do público (que, no conceito da peça, está assistindo a uma master class) é uma Maria Callas com um comportamento quase beirando a histeria, reclamando por não ter a banqueta e a almofada que havia requisitado, enfatizando como é fundamental para um cantor de ópera ter um "look", uma aparência que se destaca com elegância e graça.

Finalmente, a primeira aluna, Sophie, uma jovem soprano (a cativante Alexandra Silber) entra no palco para cantar a dramática ária Sonnambula, de Bellini, no papel da abandonada, e emocionalmente frágil jovem do interior Amina. Sophie não vai além da primeira nota, um dó prolongado no registro médio, expressando a palavra "Oh" quando é interrompida abruptamente por Maria Callas, ordenando: "Pare aqui".

Na interpretação de Tyne Daly, nessa produção do Manhattan Theater Club (que se estende até 4 de setembro), tal frase tão depreciativa de Callas provoca risos. "Desculpe agir assim com você", ela prossegue, "mas por que ir adiante com isso se está tudo errado, não é?". E explica em seguida: "Não é uma nota que estamos procurando alcançar aqui, mas uma "punhalada de dor". A dor da perda".

Mas como, exatamente, uma cantora pode exprimir essa perda pela voz? É só uma questão de sentimento? Deve haver alguma coisa mais específica que um professor pode transmitir. Nesse sentido, a Maria Callas imaginada por Terrence McNally não ajuda muitos os seus alunos.

A julgar pelo excelente livro do crítico John Ardoin, publicado em 1987, Callas at Julliard: The Master Classes, e especialmente pela gravação, em três discos, das audições, Maria Callas at Julliard, que inclui longos excertos de cursos que ela ministrou para 10 estudantes, Maria Callas não era a prima-dona arrogante e egocêntrica da peça de Terrence McNally. Mas sim uma mestra franca e exigente e, ao mesmo tempo, paciente e encorajadora. E era, sobretudo, e de maneira impressionante, precisa nas suas críticas interpretativas e técnicas.

Uma das suas alunas (a soprano Pamela Hebert) está na gravação, na qual interpreta a ária Casta Diva da ópera Norma de Bellini. Se Callas teve um papel que se tornou a sua marca, foi o da sacerdotisa druida de Bellini. Nas transcrições dos seus comentários, falando da sua longa experiência e o seu enfoque desse papel, ela atribui todo o mérito aos seus mentores, especialmente o regente italiano Tullio Serafin, que lhe ofereceram insights cruciais. Em uma das gravações, tece comentários minuciosos, explicações inteligentes, sobre a ornamentação no estilo de Bellini. Na longa abertura da Casta Diva, insiste que o fraseado ornamental deve ser cantado uniformemente, numa "única tonalidade", com todas as notas claramente articuladas.

Embora a sonoridade da voz de Pamela Hebert seja exuberante, num primeiro momento parece não haver fluência nos seus floreios: algumas notas se sobressaem mais do que outras. A segunda tentativa, contudo, é mais refinada. Mas na fase seguinte, para os ouvidos exigentes de Maria Callas, Pamela trapaceia em algumas notas.

"Não posso permitir que isso passe", Callas afirma, não com severidade, porém insistindo na integridade vocal e musical. E então procura auxiliar Pamela a cantar sem abusar da voz.

Embora a carreira de Maria Callas estivesse oficialmente encerrada à época em que ministrou as master classes (a última vez que subiu no palco para uma ópera foi em 1965), ela cantava continuamente enquanto trabalhava com seus alunos, sempre ilustrando seus argumentos, mesmo quando sua voz vacilava e sua sonoridade já não era tão refinada. Há muitos flashes da grande Maria Callas nessas gravações reveladoras.

Era preciso muita coragem para se expor como ela se expôs. Trabalhando com uma soprano numa ária de Medeia, de Cherubini (cantada em italiano), ela procura demonstrar para os alunos o que é a calma trágica que, diz ela, as frases resignadas devem ter. Sua voz está cansada, mas continua majestosa. "Não digo que estou cantando maravilhosamente", diz ela. "Mas tem que ser com essa calma."

A licença dramática quando se retratam figuras históricas é uma tradição nas artes, desde as obras de Shakespeare à representação por David Fincher do fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, em A Rede Social. Uma declaração de isenção de responsabilidade consta da edição publicada de Master Class, indicando que a peça de McNally é uma "obra de ficção".

A montagem, enfim, é sobre Maria Callas, a mulher e a artista famosa no auge da crise, na vida e na arte. Nos dois atos, há cenas em flashback em que a sala de aula desaparece e ela, sozinha no palco, se entrega às lembranças das glórias artísticas do passado e às dolorosas recordações do seu relacionamento com Aristóteles Onassis, que a abandonou para casar-se com Jacqueline Kennedy. São momentos de grande dramaticidade; há outros que são puro melodrama. A intensidade feroz da intérprete, Tyne Daly, colocou-me no grupo dos que se emocionaram muito.

Treino. A peça também explora o que representou para Maria Callas, a mais importante cantora de ópera do século 20, com apenas 48 anos, treinar cantores que estavam surgindo, alguns ambicionando conseguir os mesmos papéis que ela um dia interpretou.

Terrence McNally é um aficionado de ópera muito bem informado e um libretista de profissão. Não tenho problema com o fato de ele, como dramaturgo, tentar entrar na cabeça de Callas. E há momentos sedutores das master classes na Julliard School, como, por exemplo, quando ela aconselha Sophie a não vestir uma saia curta no palco, para que a plateia não enxergue mais do que ela gostaria.

Mas o que me aborrece é que muitas pessoas que assistem à peça saem do teatro com uma noção mínima do quão artisticamente importantes foram as reais aulas dadas por Callas.

Num certo momento do espetáculo, um jovem tenor muito seguro de si chamado Tony (interpretado por Garrett Sorenson) anuncia que vai cantar Recondita Armonia da Tosca de Puccini. Mas questionado por Callas, ele parece não ter nenhuma noção de quem é o seu personagem e o que ocorre na cena. "Vá para casa", grita ela. "Está desperdiçando nosso tempo. Próximo aluno." Mas Tony acaba por encantá-la e ocorre que ele tem uma voz de tenor excepcional.

A verdadeira Maria Callas não se encantou tão facilmente na Julliard quando o barítono Sung-Kil Kim interpretou a veemente ária Cortigiani, vil razza dannata, do Rigoletto de Verdi. Na gravação, o jovem cantor exibe uma voz robusta, mas um sentimento limitado demais para a fúria angustiante de Rigoletto quando se defronta com os cortesãos no palácio do Duque de Mântua.

Maria Callas pede ao jovem que traduza o texto italiano, mas ele não consegue. Ela o auxilia. Rigoletto acusa os cortesãos de serem "horríveis" e "covardes", diz ela. Por que preço, diz o libreto, vocês roubaram "il mio bene?". O barítono traduz a frase como "minha namorada". Atônita, Callas diz: "Não! Namorada? Não! É sua própria filha". ""Il mio bene" significa o seu tesouro, tudo o que ele tem", ela explica.

Rigoletto é a ópera definitiva sobre um pai protetor. Estava o aluno nervoso (que seguiu uma robusta carreira como tenor) apenas inseguro do seu inglês? Ou realmente estava confuso quanto à história de Rigoletto? Não importa, o fato é que Callas decide trabalhar com o jovem, tentando instalar nele um pouco do brio que ela dá à música ao interpretar essa difícil ária com sua já fragilizada voz de soprano.

Uma peça que procura mostrar as aulas dadas por Maria Callas nas master classes na Julliard School pode não ser um excelente teatro. Mas é emocionante ouvi-la na Julliard, tão vulnerável e benevolente ao trabalhar com uma nova geração de cantores, deixando de lado por um instante qualquer preocupação com o seu futuro. Ela morreu cinco anos depois. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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