Calígula: tragédia do passado para refletir o futuro

Ao criar a paça, Camus via líderes autoritários venerados pelas massas, como Stalin, Hitler e Mussolini

Antonio Gonçalves Filho, de O Estado de S. Paulo,

27 de novembro de 2008 | 21h35

Calígula já foi definido como um rebelde metafísico por considerar que os negócios de Estado são intoleráveis e absurdos. Se os negócios do Estado não contemplam transcendência e os homens submetem-se voluntariamente a esse absurdo, como podem suportar esse mundo? Ou são hipócritas ou tolos. Então, merecem ser mortos. A lógica de Calígula é implacável e, ao criá-lo, em 1938, Camus estava de olho em líderes autoritários venerados pelas massas, como Stalin, Hitler e Mussolini. Depois que explodiu a bomba em Hiroshima, Camus fez duas grandes revisões de sua peça, em 1947 e 1958, que, se não alteram a estrutura de Calígula, ao menos ampliam seu escopo alegórico. Incorporada involuntariamente à figura do imperador, a bomba atômica, marco zero do projeto autodestrutivo da humanidade, forçou Camus a uma terceira revisão da peça, em 1958, quando Gérard Phillipe interpretou Calígula. Para o ativista político e pacifista, sua peça era, sim, uma "tragédia da inteligência". Primeiro intelectual a denunciar o uso perverso da bomba de Hiroshima, ele teve o pudor de não associá-la ao poder do imperador nesta terceira e última versão da peça (a escolhida por Villela). Nem precisava. Até Sidney Lumet, que dirigiu a peça na Broadway na época, optou pela austeridade. Calígula estava suficientemente alterada para contemplar uma leitura menos política e mais filosófica que talvez pretendesse seu autor no primeiro esboço. Camus diminiu o impacto dramático da versão que estreou em 1945, mas não sua crítica aos perigos do absolutismo filosófico -"que faz a vida significar nada", como observa o ator Pascoal da Conceição (na peça, Cherea, intelectual conservador e opositor de Calígula). De qualquer modo, fica a suspeita de que o homem absurdo de Camus fica devendo algo a Nietzsche: ambos hostilizaram o desprezo que a filosofia cristã devota à vida terrena e, sobretudo, mostraram-se dispostos a encarar a trágica natureza da existência. Seu Calígula, como já disseram dele, é Suetônio revisto por Ionesco.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.