ED FERREIRA/ESTADÃO
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Novo ministro da Cultura Marcelo Calero se aproxima de classe artística e toma posse nesta terça-feira

Político assume o cargo depois de se reunir com os representantes da Associação Procure Saber, na casa da produtora Paula Lavigne

Julio Maria e Roberta Pennafort (RIO), O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2016 | 03h00

A presidente da Associação Procure Saber, Paula Lavigne, recebeu em sua casa domingo (22) o novo ministro da Cultura, Marcelo Calero, que toma posse oficial hoje, depois da recriação do Ministério da Cultura pela medida provisória 728. Ao contrário de outros setores, que se negam a abrir diálogo com representantes do governo interino de Michel Temer para não reconhecê-lo como legítimo, Paula não só falou com o ministro como teve boa impressão do primeiro encontro.

“Eu tive a melhor impressão. Ele já chegou com o caderninho para anotar o que dizíamos. Qual político recebe você com um caderninho?”, diz ao Estado. O Procure Saber representa interesses de músicos como Caetano (marido de Paula), Gilberto Gil, Chico Buarque, Milton Nascimento, Djavan e outros.

A pauta do encontro foi a permanência no MinC do Departamento de Direitos Autorais. O DDI é o órgão responsável pelas mudanças na política de arrecadação e distribuição de direitos, uma antiga luta do Procure Saber. Uma das mudanças, sancionadas pela ex-presidente Dilma Rousseff, prevê a fiscalização do Ecad por um colegiado ligado ao MinC, algo que jamais ocorreu nos 40 anos do departamento.

Na reunião, Paula estava com alguns artistas, mas não revelou nomes. “Ele (Marcelo Calero) me pareceu querer fazer política de estado, não de partido. Mostrou boa vontade, pareceu querer manter o que está funcionando e falou o tempo todo que está lá fazendo parte de um governo interino. Achei isso muito bom.”

Ocupações. Entre os desafios do novo ministro está o destino dos prédios do MinC, da Fundação Nacional de Artes (Funarte) e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) ocupados por artistas e profissionais há nove dias. São 21 estados participantes, segundo representantes do Ocupa MinC RJ que estão no Palácio Gustavo Capanema, no Rio.

“Vamos continuar. A retomada do MinC é mais uma manobra para enfraquecer as manifestações. Nos últimos 13 anos, tudo o que foi construído em política cultural foi pactuado em conferências. Se o governo é ilegítimo, tudo o que ele faz é ilegítimo”, disse a ocupante Ana Lúcia Pardo, atriz e professora.

Os artistas consideram que a luta não é só pela Cultura, mas pelo fim do governo do presidente em exercício, Michel Temer. Por isso, a volta do MinC não muda o cenário – ainda que o novo ministro já tenha anunciado a necessidade de desocupação. O Estado tenta entrevistar Calero há três dias, mas ele não falou com a reportagem.

A ocupação do Capanema começou segunda passada. É a de maior repercussão do País, por ter recebido endosso de artistas do Procure Saber. Erasmo, Caetano e Arnaldo Antunes fizeram shows. As atrizes Marieta Severo, Renata Sorrah, Mariana Lima e Teresa Seiblitz visitaram o prédio e gravaram vídeos de apoio. O 2º andar do Capanema, o mezanino e os pilotis do edifício estão ocupados. Cerca de 50 pessoas se revezam dormindo no 2º andar. Durante o dia, quando são realizados reuniões e oficinas, o público é flutuante.

Membros da ocupação da representação do MinC em Salvador informaram ontem pelo Facebook: “Não comemoramos o retorno do ministério dentro de um governo que afirmamos ser golpista; nos recusamos a negociar com este governo por entendermos que a questão da cultura não pode ser tratada dentro deste contexto antidemocrático, de instabilidade política e de supressão de direitos sociais”.

A ocupação da Funarte em Belém (PA) publicou manifesto em que ratifica que “o fim do MinC acabou sendo o estopim para o reconhecimento de artistas e não artistas do âmbito regional e nacional”. “Agora, o movimento segue para outros espaços abandonados e não-centrais, mas não se desintegra do movimento de ocupação em âmbito nacional (Ocupa MinC); pelo contrário, articula com os movimentos periféricos que têm os ministérios não como aliados, mas como instrumentos de burocratização e frustração, pela falta de representatividade nas vias públicas e de fomento, visando potencializar o artista enquanto instrumento político e resistente da cultura popular.”

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