Calendário definido renova o que parecia perdido em 'Lost'

Produtores da série retomam ritmo das temporadas anteriores e recuperam parte da audiência

Edward Wyatt, do The New York Times,

24 de abril de 2008 | 19h16

Há pouco mais de um ano, os criadores de Lost, o seriado-drama da ABC sobre os sobreviventes de um acidente de avião perdidos em uma ilha, pareciam tão perdidos quanto os personagens que criaram. A série, que fez grande sucesso em sua primeira temporada, acabou derrubada na terceira parte por causa das expectativas criadas pelo êxito inicial. A audiência estava lentamente desistindo da trama, à medida em que cresciam as dúvidas de que Lost tinha uma direção definida e o enredo complicado dificultava a adesão de novos fãs. Mesmo assim, Lost chega nessa quinta-feira, 24, à segunda metade de sua quarta temporada (encurtada pela greve dos roteiristas de Hollywood), que está se movendo em ritmo alucinante, animando os fãs e empolgando também os roteiristas, atores e equipe da série. Como isso aconteceu? "Nós estávamos meio que enrolando" na última temporada, explicou Carlton Cuse, um dos produtores executivos de Lost, que junto com Damon Lindelof forma o núcleo do time criativo por trás dos mistérios da ilha. "Nós não sabíamos se a mitologia que criamos deveria durar mais duas temporadas ou mais sete temporadas. E isso estava nos deixando loucos, porque não sabíamos o quão rápido poderíamos ir." O que os produtores pediram e receberam da emissora ABC foi algo quase inédito nas transmissões televisivas: uma data final, quando a série deveria terminar e os mistérios da ilha seriam revelados. No começo de maio de 2007, a ABC e os produtores anunciaram que a trama de Lost se desenrolaria por mais três temporadas, até o meio de 2010. Semanas mais tarde, no último episódio da terceira temporada, os autores de Lost usaram uma seqüência surpreendente de flash-forwards (trechos que mostram passagens do futuro na trama) para mostrar dois dos sobreviventes, Jack e Kate, fora da ilha e lidando com as conseqüências de sua volta à civilização. Depois disso, houve revelações atordoantes semana após semana na atual quarta temporada, sobre quem conseguirá escapar da ilha. (Essas revelações vieram, até agora, com poucas explicações de como os sobreviventes fizeram isso e o que aconteceu aos que ficaram na ilha.) Ter uma data fixa para terminar "mudou tudo," declarou Lindelof. "É exatamente a diferença entre não querer mais fazer (a série) e estar empolgado em fazê-la até o fim .Se tornou uma tarefa difícil: como poderíamos começar a trabalhar em direção ao que estivemos planejando nos últimos três anos se não sabíamos quando chegaríamos nesse planos?" Críticos de televisão concordaram que a mudança só ajudou a série. "Lost recuperou sua essência e tornou-a melhor," escreveu em janeiro o crítico de televisão do jornal The Star-Ledger of Newark; ele foi um das vozes mais altas questionando se os produtores sabiam onde estavam indo. Stephen McPherson, o presidente da ABC Entertainment, afirmou ter ficado satisfeito com os resultados, embora nunca tenha acreditado no enfraquecimento da série. "Eu acho que a resposta extremamente positiva à esta temporada confirma que eles (os produtores) estão fazendo um trabalho incrível e correspondendo às expectativas," disse McPherson por e-mail. Numa entrevista este mês no escritório dos roteiristas da ABC, em Burbank, Cuse e Lindelof disseram que muita da inspiração para pedir uma data final veio de Stephen King, romancistas fã da série. No começo da segunda temporada, King, que é colunista da revista americana Entertainment Weekly, escreveu que os criadores de Lost tinham a responsabilidade de decidir quando terminar a série. "Ele nos deu muita coragem para de fato ir até o estúdio e pedir algo que normalmente não se pede," disse Cuse. Outra inspiração foi J.K. Rowling, a autora de Harry Potter, que anunciou logo no começo da série que a história terminaria no sétimo livro. "(J.K. Rowling) Foi genial porque delineou o quanto de dedicação teria que ser dada àquele universo," disse Cuse. "Definiu uma jornada e também deu ao público a certeza de que ela sabia onde estava indo. Isso tornou-se um exemplo para nós." Falta saber se a renovação da série vai ajudar a segurar espectadores que voltaram nessa temporada, depois de terem desistido. O programa atraiu em média 15,2 milhões de telespectadores em cada um dos oito episódios do início desta temporada, de acordo com pesquisa do Nielsen Media Research. Esse número fica fora dos dez maiores programas transmitidos nas grandes emissoras durante o horário nobre. Embora tenha aumentado ligeiramente em relação à última temporada, ainda é menor que os 16 milhões de telespectadores que a série tinha no primeiro ano. Há outros pontos positivos. Entre os grupos de espectadores que a publicidade mais visa, adultos de 18 a 49, essa temporada de Lost está em sexto lugar. E é um dos shows mais gravados da televisão, de acordo com o Nielsen Media Research, com quase 20% da audiência assistindo o programa fora do horário em que ele passa. Para ajudar novos espectadores a acompanhar a série, a ABC tem passado reprises dos episódios desta temporada com notas de rodapé - textos na tela explicando as relações entre personagens e outras informações da trama. Os criadores também prometeram que a parte restante desta temporada vai trazer outras grandes revelações, incluindo detalhes do que acontece quando os Oceanic 6, os seis passageiros que conseguem sair da ilha, aparecem como sobreviventes de um acidente de avião que teria matado todos os passageiros. As temporadas 5 e 6 prometem ir ainda mais longe, talvez para um presente que se passa fora da ilha, fazendo o tempo na ilha ser o principal assunto da marca registrada da série, os flashbacks. Lindelof e Cuse dizem que, mesmo sendo fácil, especialmente de maneira tardia, detectar o momento que Lost pareceu ter perdido seu rumo, foi mais difícil fazer isso em tempo real. "Nós chamamos isso de 'paradoxo da Cachinhos de Ouro,'" contou Lindelof. "O mingau de aveia de Lost nunca está bom. Está sempre frio demais ou quente demais. Então ou você está indo rápido demais, e as coisas ficam confusas, e as pessoas começam a dizer 'Não consigo mais acompanhar a série', ou você está indo muito devagar, e as pessoas dizem 'Isso é frustrante, eles estão enrolando, não tenho respostas para minhas perguntas.'" Agora, entretanto, os dois concordam que o anúncio de uma data para o final aumentou as expectativas. "Nós rimos muito sobre as altíssimas expectativas para o episódio final," declarou Cuse. Lindelof acrescentou: "E é nosso trabalho agora diminiuir as expectativas. Estivemos nessa montanha-russa por tempo suficiente para saber que ainda vão ter subidas e descidas. A realidade é que a quarta temporada está numa enorme subida. Mas esperar que ficaremos lá em cima, até o fim da série, não é nosso objetivo." "Lost," ele completou, "é uma série que vive do espírito da época. Ou as pessoas a amam, ou estão dizendo, 'Por que ainda estou assistindo a isso?' E se fizermos nosso trabalho direito, é exatamente assim que vai continuar até o fim."

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