Calaram o bardo!

A Synetic Theater ousa, e é elogiada, ao mostrar adaptação muda de Otelo, nos EUA

Entrevista com

Francisco Quinteiro Pires, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2010 | 00h00

Um dos maiores sacrilégios foi cometido no mundo das artes. Roubaram as palavras de William Shakespeare. O culpado é o georgiano Paata Tsikurishvili, fundador da companhia Synetic Theater. No mês passado, em curta temporada, ele apresentou a sua adaptação muda de Otelo no John F. Kennedy Center for The Performing Arts, em Washington, D.C. Sexta montagem feita sem a pronúncia de uma sílaba, Otelo é o auge da Synetic Theater. Mesmo sendo o mais abstrato, esse trabalho atrai o público. E a crítica. O New York Times classificou as criações da cia. de "arte com "A" maiúsculo".

A Synetic faz algo raro: respeita a inteligência do espectador. Mímica, dança, música e recursos tecnológicos têm um efeito inesperado, revelador da alma tortuosa de personagens como Iago. Nesta história clássica sobre ciúme, Iago é representado por três atores, solução que denuncia o caráter dividido do personagem manipulador.

Quando faz uma montagem tão ousada, Tsikurishvili revela estar interessado na investigação do lado tenebroso do ser humano. Ele o define como "o espaço entre a luz e a sombra onde o demônio atua". Outra descoberta fundamental é a força destrutiva das ilusões sobre a mente humana. Essa montagem expõe bem a fraqueza de Otelo, que, antes de duvidar de Desdêmona, a mulher amada, duvida de si mesmo. O escravo transformado em chefe de exército sucumbiu à inocência de um lenço, por ignorar o mundo real. Ele preferiu habitar o seu universo particular de ilusões, pagando um preço altíssimo. Por isso, O Que É o Mundo Real? se tornou a questão mais importante para o diretor nascido na República da Geórgia, como disse na entrevista ao Estado.

Em 2011, a Synetic completa 10 anos de atuação nos EUA. O sucesso em país estrangeiro se deve, segundo o fundador, à criação de linguagem que rompe fronteiras. Essa linguagem que não depende do verbo, ele diz, pode levá-lo a mostrar o seu trabalho no Brasil. É só aparecer convite.

William Shakespeare é um autor sagrado. É um dos pais da língua inglesa. E a sua adaptação de Otelo aboliu as falas. Como foi substituir palavras por imagens que revelam as distorções da realidade feitas pela mente dos personagens?

Foi difícil adaptar Otelo sem palavras, já que o texto é conhecido por sua bela poesia. Por ter sido traduzido em várias línguas, ele perdeu a sua essência inglesa. Os seus assuntos dizem tanto a um georgiano quanto a um russo. Quis levar a história para outro nível, desenvolvendo fortes relacionamentos e criando símbolos. Eu me apropriei da poesia e a traduzi em movimento, mímica, dança e novas tecnologias. Os atores se transformam em pintura e meu trabalho é ser o pincel.

O seu Otelo é diferente do de Shakespeare? Sua adaptação fala sobre algo além do ciúme?

A nossa adaptação é e não é diferente. Este é o mesmo Otelo, é a mesma história que arrebata a sua alma, mas não é o Otelo tradicional. A nossa produção se baseou no ciúme, mas se desdobrou em temas mais profundos. Ela foi um pesadelo sexual e também um universo de sentimentos desiludidos e de emoções que mostram o efeito destrutivo e benéfico do amor sobre líderes políticos. É o Bem contra o Mal. O espetáculo permitiu usar elementos multimídia para mostrar a vida íntima de Otelo e a manipulação usada por Iago para controlar a todos.

Otelo é a sua montagem mais abstrata?

Sim, mas, apesar disso, se mantém muito acessível.

Ao comentar a peça, você cita "o espaço entre a luz e a sombra onde o demônio atua". Acha que as palavras não revelam tão bem esse espaço ambíguo?

Imagens têm poder de comunicação maior que as palavras. Algo em torno de 80% da nossa comunicação é linguagem corporal e o resto é verbal. O que se vê gera nas pessoas um efeito mais forte que as palavras.

Iago é interpretado por três atores que ficam no palco o tempo todo. Para mim, mostra como é tortuosa a alma desse personagem. O que você tinha em mente quando criou este Iago, que usa roupas com cores vermelha, branca e preta?

Vermelho, preto e branco são símbolos que representam diferentes coisas - sangue, escuridão profunda ou as personalidades de Iago. Todos carregamos essas cores na alma. Só depende de quando e como as mostramos. A forma feminina de Iago apresenta a sua possível afeição por Desdêmona. A forma masculina pode representar a possível afeição por Otelo ou um desejo de poder. O que Shakespeare fez em seu texto foi criar um personagem tão ambíguo que o leitor ou o espectador é levado a se perguntar: por quê? Ninguém sabe o que move Iago, ninguém explica por que ele faz o que faz. É uma alma torturada.

Acredita que Iago, um mestre da ilusão, pode ser mais atraente para as pessoas do que Otelo?

Sim, foi assim que Shakespeare escreveu a peça. Iago é dono de 50% das falas e Otelo de quase 25%. A peça deveria se chamar Iago, mas o enredo é sobre Otelo. Com nossa adaptação - visual - se percebe isso.

Você disse que, observada à luz correta, o gesto mais bonito pode trazer dentro de si a maior das tragédias. O que é essa luz correta? O que ela teria a ver com as ilusões que dominam as ações humanas no mundo real?

A luz correta é a que permite ver as coisas como elas são. No espetáculo, Iago inverte essa luz na mente de Otelo para manipulá-lo a cometer atos que não cometeria. Mas o que é o mundo real? É o que vemos pelos olhos, pela mente ou pelas emoções? Otelo se questiona e o mundo a sua volta na peça. A nossa maneira de ver muda as nossas ações dia após dia.

A reação dos deficientes auditivos à sua adaptação sem palavras é diferente?

Ficam maravilhados. Creio que eles percebem nossas produções do mesmo jeito que os que escutam. Mas a reação deles é mais efetiva, porque a linguagem não verbal é o idioma nativo. É o caso de um dos nossos atores, Greg Anderson. Ele ama atuar conosco porque participa da criação tanto quanto qualquer outro ator.

Já veio ao Brasil? Conhece o teatro brasileiro?

Adoraria visitar o Brasil. Sou fã da sua seleção de futebol. A nossa companhia usa uma linguagem sem fronteiras. Foi assim que conseguimos sair da Geórgia para os Estados Unidos.

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