Caixa de surpresas

As Aparências Enganam, último disco de Ney Matogrosso lançado em vinil, em 1993, havia tempos estava fora de catálogo e agora volta remasterizado, com som bem superior ao da primeira versão em CD, na caixa Metamorfoses (Universal), com coordenação e textos de Rodrigo Faour.

LAURO LISBOA GARCIA, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2011 | 03h06

Incluindo libreto recheado de entrevistas com o cantor e um CD duplo de raridades (leia ao lado), o box tem 16 CDs e custa em média R$ 300. Um dos melhores do período que cobre a caixa (de 1993 a 2009), As Aparências Enganam é também um título que ironicamente se aplica a alguns problemas que projetos de relançamentos de álbuns fora de catálogo vêm apresentando, seja por falha na revisão das gravadoras ou por exigência pessoal de envolvidos na parte artística.

Capas originais são substituídas por questões de direitos sobre imagens (Gal Canta Caymmi, Bethânia & Edu, Contrastes, de Jards Macalé), há música com trecho cortado (Lamento, do álbum Tim Maia, 1972), outra suprimida por capricho do autor (Quero Que Vá Tudo Pro Inferno, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, no tributo de Nara Leão), CDs com chiados provenientes das cópias de discos de vinil mal cuidados, como observou o atento DJ Zé Pedro, no caso de álbuns de Elza Soares e outros.

O referido CD de Ney saiu com capa e contracapa extraídas do LP, com duas faixas (El Manisero e Las Muchachas de Copacabana) em ordem trocada e faltando uma, Cheiro de Saudade, de Alceu Valença. A gravação está lá no CD, mas não consta da contracapa e não tem letra no encarte.

Como no citado caso de Tim Maia e da coletânea Maria Bethânia Anos 70 (que saiu com gravações ao vivo de Esotérico, O Seu Amor e São João, Xangô Menino no lugar das anunciadas de estúdio), a Universal vai corrigir o erro e recompensar o consumidor.

Faour assume a responsabilidade pela derrapada nos casos de Bethânia, mas no de Ney "a culpa foi do revisor". "Alguns projetos gráficos originais de CDs foram perdidos e tiveram de refazer algumas artes gráficas de CDs originais dele", explica. No caso de As Aparências Enganam o colecionador cedeu a capa do LP de seu acervo para ser copiada.

"Só que resolveram fazer uma 'adaptação do vinil' e não sabiam que havia diferenças entre o CD e o LP", diz. Entre 1988 e 1992 os discos saíram nos dois formatos simultaneamente, com faixas bônus no CD, que não cabiam no LP, caso de Cheiro de Saudade. "Resultado, conferi apenas os áudios de todos os discos e a arte gráfica do CD de raridades e do libreto. Achei que as artes seriam idênticas a dos CDs originais, não imaginava que isso ia acontecer", diz Faour. Esclarecido o deslize, vamos ao conteúdo. No restante da caixa está tudo certo.

Nessa fase, Ney gravou dois expressivos álbuns com predominância de canções inéditas e pérolas ocultas (Olhos de Farol e Inclassificáveis), alternando-os com projetos especiais de regravações (As Aparências Enganam, com o grupo Aquarela Carioca, Vagabundo, com Pedro Luís e A Parede, e Beijo Bandido), tributos a Ângela Maria (Estava Escrito), Chico Buarque (Um Brasileiro), Tom Jobim e Villa-Lobos (O Cair da Tarde), Carmen Miranda (Batuque) e Cartola (Ney Matogrosso Interpreta Cartola), registros ao vivo (Canto em Qualquer Canto e três originados de outros títulos de estúdio), além de revisar a triunfante carreira no CD duplo Vinte e Cinco.

A peculiaridade e a exuberância interpretativa de Ney, unidas ao extremo cuidado com detalhes - desde a escolha do repertório, os arranjos e os projetos visuais - fazem com que ele se supere em muitos registros, pelo poder de transformação sobre o que toca, tão marcantes quanto os álbuns da década de 1970. Não é só ele, em pessoa, que sofre metamorfoses - e não envelhece.

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