Caiu do céu

De 10 novos artistas, ele aparece no disco de 9. Agora, Marcelo Jeneci lança seu primeiro álbum

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2010 | 00h00

Marcelo Jeneci é o cara. Pianista e acordeonista refinado e estiloso, ele começou a carreira profissional aos 17 anos, acompanhando Chico César. A lista de discos e shows em que deixou sua marca como músico e compositor é extensa, incluindo Arnaldo Antunes, Zélia Duncan, Vanessa da Mata, Karina Buhr, Luiz Tatit e Zé Miguel Wisnik. Agora o compositor "aparece" mais no conjunto de ótimas canções de seu primeiro CD solo, Feito pra Acabar.

Na bela casa (alugada) em que mora no Alto da Lapa, Jeneci mantém um estúdio onde lapida suas canções e arranjos e tem como companheiros dois cães da raça labrador. O preto, cativante, chama-se Fuscão. A brincadeira com o título de uma canção muito popular de Almir Rogério no início da década de 1980 faz todo o sentido.

Jeneci assume o brega com dignidade, como outros de seus contemporâneos, entre eles Andreia Dias, Fernando Catatau (com quem tocou no Cidadão Instigado) e a banda carioca Do Amor. "Catatau traz essas referências de maneira muito original, com muito amor e respeito, então ele as apresenta para essa galera uma referência nova. E o fato de ele ser tão intenso e morar em São Paulo, acredito que modifica a música que é criada não só aqui, mas no Sudeste do País."

Jovem guarda. Está no ar uma onda de que "é legal pegar a leveza que a jovem guarda tinha e fazer isso de um jeito novo". Não por acaso, Jeneci e Catatau se envolveram com Arnaldo Antunes no sensacional álbum Iê, Iê, Iê, de 2009. Para Jeneci as influências são recíprocas tanto dele no disco de Arnaldo, como essa experiência com ele sobre seu trabalho atual.

A fonte principal de sua formação vem dos pais da matéria: Roberto Carlos e Erasmo Carlos. Paulistano do bairro de Guaianases, Jeneci desde pequeno ouviu Roberto por influência do pai, de família pernambucana, do agreste de Sairé. "Quando meu pai se mudou de Pernambuco para São Paulo, ficava cantando ao violão para minha mãe as músicas do Roberto. Quando meus avós voltaram para Sairé, ele ficava mandando fitinhas com músicas do Roberto, como O Portão, pra minha avó, pra matar a saudade. Então, absorvi isso na infância de maneira afetuosa. Acho que foi uma ótima influência."

Era em Pernambuco que passava as férias com a família, e a discografia de Alceu Valença foi sendo assimilada totalmente. Aos 4 anos, Jeneci já dedilhava no piano o solo de teclado de Na Linha do Horizonte, do Azymuth. Foi sua primeira experiência musical. Ouvia Vangelis, Jean Michel Jarre, Richard Clayderman, que o pai lhe mostrava e ele tentava tirar no teclado, além de trilhas de cinema. Depois da tentativa frustrada de ingressar numa escola de música, aos 8 anos, passou a tocar órgão na igreja evangélica que sua mãe frequentava. Assistia a programas de canais abertos de televisão, incluindo novelas. Mais influências vêm daí.

Tom e Erasmo. Seu pai trabalhava consertando eletrodomésticos e teclados, então ele começou a brincar nos instrumentos, ao mesmo tempo em que tinha contato com músicos como um sanfoneiro e professor chamado Josué, que conheceu aos 13 anos e começou a ensinar a ele as músicas de Tom Jobim. Das "construções harmônicas preciosas" de Tom, ele fez a ponte para o jazz e foi ficando muito habilidoso no piano. Foi então que Toninho Ferragutti o indicou para tocar em seu lugar na banda de Chico César. "Até então não tocava sanfona, peguei uma emprestada de Dominguinhos e fui aprender", lembra.

Ao gravar Feito pra Acabar, Jeneci tomou como referência a sonoridade de algo bem diferente disso, o disco Carlos, Erasmo, de 1971, apresentado por um amigo que via nele um discípulo do parceiro de Roberto. "Quando ouvi, tive um choque, fiquei muito impressionado, não conhecia", conta. "Fiquei muito emocionado porque vi pela primeira vez condensado num artista e num álbum o que eu gostaria de fazer com a minha música: o som, a instrumentação, a letra, o jeito de cantar despretensioso."

Daí que Jeneci foi atrás dos arranjadores do álbum de 1971 e chegou a Arthur Verocai, que assina os arranjos de cordas e orquestrações de 5 das 13 faixas de Feito pra Acabar. "Desde que comecei a idealizar esse disco, queria ter uma orquestra. Coloquei essa ideia na cabeça e inviabilizei a gravação por muito tempo por causa disso, porque precisava de grana para bancar essa estrutura", conta o músico.

O patrocínio que obteve da Natura Musical cobriu parte dos custos das gravações e do belo projeto gráfico, com fotos polaroids de Caroline Bittencourt. Nesse cartão de visitas, ele não quis economizar mesmo e chegou na escala decimal dos três dígitos.

Kassin se encarregou da produção, determinou a sequência das faixas e sugeriu que a banda toda (Edgard Scandurra, Bruno Buarque, Curumin, Régis Damasceno, Gustavo Ruiz e Estevan Sinkovitz Neto, entre eles) gravasse o disco ao vivo na grande área do estúdio Comep em São Paulo, ficando ele e Laura Lavieri em cabines separadas para as vozes. Gravaram tudo em sete dias.

Jeneci diz que procurou trabalhar com as duas linhas que considera fundamentais na vida de qualquer pessoa para mapear o disco. "A linha horizontal, que fica na superfície, e a vertical, que vai na profundidade mais cruel do assunto que tem de ser dito."

Música na novela. Jeneci fechou contrato com a gravadora Som Livre há duas semanas para distribuir seu disco, o que pode fazer sua carreira de compositor-cantor deslanchar com mais facilidade. Como instrumentista, ele já está bem resolvido, com 11 anos de carreira. Nessa transição de tocar com Chico César, Vanessa da Mata, depois com Arnaldo, Tatit e Wisnik, foi alimentando aos poucos uma vontade de também querer "pilotar um navio desses". Aí foi surgindo aos poucos a vontade incontível de compor música com letra.

Dessa safra saiu Amado, sua primeira canção, parceria com Vanessa e sucesso na voz dela na trilha da novela A Favorita. Ele nem se importa que o público saiba que foi ele quem a compôs. "O importante é que ela chegasse ao maior número de pessoas."

Aos 28 anos, agora é sua vez de, como um dos mais promissores artistas da música popular de sua geração, a fazer a transição entre o som que vem do radinho da empregada e a música culta. Potencial de hit seu disco tem vários, síntese de dez anos de experiências tão diversificadas. Assim, ele pode seguir a trilha aberta nos anos 1970 pelo também pianista Guilherme Arantes, de quem se tornou amigo e deve ser seu futuro parceiro. Tem tudo a ver.

REFERÊNCIAS

Roberto Carlos

Era o ídolo de seu pai, que Marcelo Jeneci ouvia na infância e absorveu de maneira afetiva. "Foi uma ótima influência."

Erasmo Carlos

Ao ouvir o disco Carlos, Erasmo (1971), ele descobriu o que queria para sua música: o som, a instrumentação, a letra, o jeito de cantar despretensioso.

Los Hermanos

Depois de ouvir os discos da banda de Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante, Jeneci comprou uma guitarra e um violão, que passou a usar para compor. "Fazia a levada e tinha de cantar, então começava a compor a melodia e a letra cantando. Não tendo de compor ao piano não havia muita dificuldade. Por isso as melodias são mais simples."

Toninho Ferragutti

Cliente do pai de Jeneci, o músico foi quem o indicou para tocar piano e sanfona, substituindo-o na banda de Chico César.

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