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Cair e levantar

O temido tsunami das doenças mentais provocadas pela pandemia de covid-19 não parece ter vindo

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2021 | 03h00

O temido tsunami das doenças mentais não parece ter vindo. Há muitos relatos de aumento de procura por atendimento. Há estudos mostrando mais pessoas com sintomas depressivos e ansiosos. Levantamentos apontando maior risco de transtornos mentais após infecção pelo novo coronavírus. Tudo isso é verdade, mas nada que configure – pelo menos até agora – uma epidemia, uma catástrofe dos moldes da própria covid-19.

Não que o medo fosse exagerado. Sabe-se que, após grandes catástrofes, o estresse leva a um incremento de até vinte e cinco por cento na demanda por cuidados psicológicos e psiquiátricos. Extrapolando-se esses números para a realidade que experimentamos em 2020, podia-se mesmo esperar um tsunami global.

Mas a pandemia de covid-19 afetou as pessoas de forma muito diferente. Dependendo das condições socioeconômicas prévias, da possibilidade de manutenção do emprego, da presença ou não de filhos presos em casa, do risco de adoecimento, o estresse aumentou mais ou menos. 

No Reino Unido, por exemplo, uma pesquisa que acompanhou pouco mais de duas mil pessoas ao longo do ano passado mostrou que, apesar de um aumento de sintomas depressivos e ansiosos na primeira semana da quarentena, os números foram piores entre pessoas pobres, jovens e com crianças pequenas para cuidar. Ainda assim, de forma geral, a tendência se reverteu ao longo do tempo: mais da metade das pessoas se recuperou com o passar dos dias; perto de trinta por cento manteve sintomas moderados ou graves; e quase uma em cada dez pessoas sentiu que estava melhor do que antes. A maioria das pessoas apresenta um bom grau de resiliência.

Esse conceito pode ser traduzido como a capacidade de se adaptar diante de traumas importantes, absorvendo o estresse e recuperando a possibilidade de funcionar bem no dia a dia, sem sequelas relevantes. Há vários fatores associados à resiliência que não podemos mudar, como traços de personalidade com baixa tendência a emoções negativas ou carga genética sem riscos para depressão. Mas felizmente uma das variáveis mais importantes pode ser modificada: a presença de suporte social. Sentir-se inserido numa rede de amparo, saber que se tem com quem contar na adversidade, não ter a sensação de isolamento, faz toda diferença diante de situações estressantes, ajudando-nos a absorver os impactos e a retomar a vida.

Não são todas as pessoas que têm essa possibilidade, no entanto: a solidão é um problema crescente no mundo todo, o que, aliado à necessidade de distanciamento físico, tornou mais difícil para algumas pessoas contar com tal suporte. Ter consciência da importância de tal fator, contudo, é essencial para criarmos uma comunidade mais resiliente. Primeiro porque podemos todos nos preocupar mais com isso, não negligenciando nossas próprias redes. Mas também porque as iniciativas de governos e terceiro setor, por meio de ONGs, igrejas, associações, podem centrar esforços na construção de novas redes e facilitar o ingresso nelas daqueles com necessidade.

Com isso, mais gente conseguirá fazer o caminho do estresse em direção à recuperação e à saúde, e não o inverso.

*É PSIQUIATRA DO INSTITUTO DE PSIQUIATRIA DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS, AUTOR DE ‘O LADO BOM DO LADO RUIM’ 

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