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Ignácio de Loyola Brandão
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Caio Graco, Amyr Klink e o mar

Nós dois estávamos nos ligando ao mesmo homem, que fez de nós o que somos hoje

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

25 de setembro de 2020 | 03h00

Disse que ia voltar ao Caio Graco e já voltei, antes que o assunto fique esquecido. Porque vida é vida. Pontos são traçados e unidos por conta, não sabemos como, mas são. No mesmo dia em que meu texto foi publicado, de manhãzinha, telefone tocou e o sujeito do lado de lá foi se identificando: “Aqui é o Amyr Klink”. Usei o clichê, admiro o homem: “Nossa, Amyr! A que devo o privilégio?”. 

Fiquei intrigado, o que o Amyr Klink queria comigo? O mar não nos liga, nele não entro nem com uma boia gigante. Ah, como admiro a coragem de Maya Gabeira naquelas ondas portuguesas que batem nas nuvens. Não me surpreendi de Amyr ter meu número, várias vezes cruzei com Marina, a mulher dele, em lançamentos e acontecimentos. Ela é simpática, faladora, interessada em tudo. Mas o que ele queria? 

“Olhe, Ignácio, foi demais! Quando li tua crônica, pensei, preciso falar com este homem. Não dava para esperar. Também tenho uma dívida com o Caio, nem imagina quanto. E nada a ver com livro. Décadas atrás, eu, ainda garotão, estava em uma montanha próxima a Paraty e vi passar lá embaixo um jovem audaz, tentando domar um veleirinho Hobie Cat, que se debatia no mar enfurecido em tarde de vento. Esse sujeito é dos bons, ama o mar, pensei. Fui para a cidade, perguntei aqui e ali, e soube que ele se chamava Caio Graco, morava em São Paulo, filho de família de nomeada e trabalhava na Livraria Brasiliense. Um dia, circulava aqui no centro de São Paulo, na Barão de Itapetininga, passei pela livraria, lembrei-me do Caio e disse: quero conhecer esse sujeito. Estava com minhas roupas usuais, roupa de bater como se diz no interior e no litoral, nunca liguei muito para isso, camisa solta, meio amassada. Entrei, me viram aturdido, alguém se aproximou: ‘Quer alguma coisa?’. ‘Quero falar com o Caio Graco. Ele trabalha aqui?’ 

‘Não só trabalha, como é nosso presidente.’ Esfriei, mas decidi, estou aqui, vou em frente. Fui, Caio me recebeu surpreso, achando que era um autor e, quando contei como o tinha visto desafiando o mar, abriu um sorriso, e nossa conversa foi por aí. Alto, charmoso, amável, cordial, ria, contava casos. Vai daí que vez ou outra eu passava por ali e subia, ia conversar. Contou-me que um dia comprou uma asa delta, subiu ao morro, montou tudo e soltou-se no ar. Resultado, uma queda e um problema com a mão direita para toda a vida. Esse é dos bons, tem sonhos, paga o preço, vai e faz. Por um bom tempo, sempre dei um jeito de passar pela Brasiliense, que depois mudou de endereço. Caio sempre me recebeu. Jamais mandou dizer ‘estou em reunião’, a mentira usual. Certo dia saímos juntos, ele me levou à Livraria Francesa, a cem metros dali, que eu não conhecia. Foi quando descobri livros maravilhosos sobre barcos, mar, pesquisadores, cientistas e aventureiros. Naquelas tardes, descobri o outro lado do mar, o fascínio, percebi o chamado e decidi minha vida. Era isso.”

Como saber que nós dois, ele olhando o mar furioso e um jovem domando um barco frágil, e eu derrubando café em cima da coisa mais preciosa que eu tinha, meu manuscrito, estávamos nos ligando ao mesmo homem, que mudou nossas vidas? Caio Graco fez de nós o que somos hoje. 

P.S. Falei do Caio há semanas. E errei o título de meu primeiro livro. É Depois do Sol e não Dentes ao Sol. Efeitos pandêmicos. Boa desculpa.

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR 'ZERO' E 'NÃO VERÁS PAÍS NENHUM'

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