Cai preço de livro, aponta pesquisa

Produção de volumes cresceu, mas faturamento de editoras estacionou

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2010 | 00h00

O preço médio do livro no Brasil manteve uma tendência de queda e, no ano passado, apontava R$ 11,11, pequena redução em relação a 2008, que era de R$ 11,52. Por outro lado, a produção total de volumes cresceu em 2009, chegando a exatas 386.367.136 unidades. "Mesmo assim, o faturamento das editoras continua estacionado nos últimos quatro anos", observou Sônia Jardim. Ela é presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel) que ontem, em parceria com a Câmara Brasileira do Livro, apresentou os resultados da Pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, tradicional diagnóstico sobre a saúde do mercado, agora com dados relativos a 2009.

De uma forma geral, os números foram favoráveis. "Mesmo com a crise mundial, manteve-se a tendência de queda no preço médio do livro, além de um expressivo crescimento na produção total de livros", observou Rosely Boschini, presidente da CBL, entidade que organiza a Bienal Internacional do Livro, cuja 21.ª edição abre as portas na sexta-feira para o público, no Palácio das Convenções do Anhembi. De fato, no ano passado, a indústria nacional produziu 386,4 milhões de exemplares diante dos 340,3 milhões editados em 2008. "Como a crise econômica praticamente não influenciou a produção de 2009, esperamos neste ano, com o mercado mundial recuperado, que os números sejam infinitamente melhores."

A pesquisa é realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) da Universidade de São Paulo, cujos dados foram baseados nas respostas de 693 editoras, que responderam a questionários online. "Neste ano, acrescentamos uma novidade que é a venda direta na internet, ou seja, por livrarias com atuação exclusivamente virtual", comentou Leda Maria Paulani, coordenadora do estudo e professora-titular da FEA-USP. Pelos dados coletados, a participação desse canal de comercialização é de 2,25%, número ainda ínfimo se comparado com a participação das livrarias (42,44%) e das vendas diretas (40,18%). "Mesmo assim, não são dados tão precisos, pois as informações vieram das editoras - o ideal é apurar diretamente com as livrarias", observou Leda.

Autores nacionais. Outra boa notícia foi o aumento de obras assinadas por autores nacionais - segundo a pesquisa, em 2009 foram editados 46.703 títulos de escritores brasileiros, contra 44.503 no ano anterior, um aumento de 4,94%. Já as cifras de obras traduzidas caiu (de 6.626 em 2008 para 5.807 no ano passado). "São várias as explicações", comenta Sônia Jardim, do Snel. "Com a sombra da crise econômica, especialmente no primeiro semestre do ano passado, as editoras concentraram suas apostas em poucos autores estrangeiros, justamente aqueles que garantem best-sellers. Isso abriu brecha para o lançamento de mais escritores brasileiros, cuja negociação com os direitos autorais é menos complicada."

O assunto, aliás, toma mais vulto no momento em que o Ministério da Cultura estimula consultas públicas sobre modificações na Lei do Direito Autoral. "Qualquer melhora evidentemente é bem-vinda, mas nossa preocupação é em relação ao encaminhamento das discussões, que privilegiam o setor musical, cujos problemas são muito distintos dos nossos", afirmou Rosely, temerosa de uma possível flexibilização na aplicação da lei. "É preciso avaliar sobre qual caminho é o melhor a seguir, ou seja, deve-se privilegiar o direito pessoal do autor e garantir a comercialização de sua obra ou, por outro lado, promover o direito de acesso da sociedade, que é justa, mas de uma forma que comprometa a remuneração do mercado?"

Política do governo. Também a inclusão do livro digital em pesquisas futuras não foi descartada. Embora a porcentagem de venda ainda seja ínfima no Brasil, a ponto de não influenciar nos dados, tanto a CBL como o Snel admitem um futuro crescimento em sua importância. "Por isso que a política governamental será decisiva", acredita Sônia. "Como o Brasil ainda detém uma média baixa de índice de leitura (4,7 livros lidos no País por habitante durante um ano), é preciso que o governo organize programas de estímulo na criação de jovens leitores. Com isso garantido, vai ser indiferente a presença de livro em papel ou digital no futuro, pois o interesse pela leitura estará preservado."

A participação do governo, aliás, sempre decisiva no bom faturamento das editoras, foi menor no ano passado: uma queda de 3,98% em relação a 2008. "A explicação está na concentração da compra em livros para o ensino fundamental, que normalmente são mais baratos", comenta Leda Maria Paulani. Já o setor de obras científicas, técnicas e profissionais apresentou um crescimento considerável. "Trata-se de uma reação ao boom de universidades em todo o País."

A conta

R$ 11,11 foi o preço médio do livro em 2009 ante

R$ 11,52 do ano anterior

22.027 títulos foram lançados em primeira edição, aumento de 14,88%

30.483 títulos tiveram reedição, queda de 4,61%

2,13% foi o aumento do faturamento do setor editorial em relação ao ano passado

52.509 títulos foram lançados no total em 2009

Uma dúvida

ROSELY BOSCHINI PRESIDENTE DA CBL

"É preciso pensar sobre um tema fundamental quando se discute mudança na lei do direito autoral: o que importa mais, a garantia do direito pessoal do autor ou o acesso à obra que prejudique o mercado?"

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