Cai cai chinês

Mostra reúne robôs, aviões rústicos de camponeses e obras de Cai Guo-Qiang

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

12 Fevereiro 2013 | 02h06

A crítica internacional adota quase sempre um discurso hiperbólico para falar do chinês Cai Guo-Qiang. Ele é o artista que "explodiu os parâmetros da arte de nosso tempo", reunindo em sua obra o melhor da mitologia antiga, da cosmologia taoista e da filosofia budista. Cai Guo-Qiang (pronuncia-se Tsai Guo Chang) é, além de tudo, o artista que ganhou um Leão de Ouro na Bienal de Veneza em 1999 e apresentou um avião feito de cortadores de unha na 26.ª Bienal de São Paulo (2004). Mais conhecido como o autor do espetáculo de abertura e encerramento da Olimpíada de Pequim em 2008, ele abriu em Brasília, no dia 5, a mostra Da Vincis do Povo, que ocupa os prédios do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) e do Museu dos Correios.

Na mostra há obras executadas por ele e invenções de camponeses chineses - que justificam o título da exposição, alusivo à genialidade do renascentista italiano Leonardo da Vinci, igualmente obcecado por objetos voadores que insistiam em cair. As da mostra são igualmente aeronaves rudimentares, de uso doméstico e igualmente destinadas à queda, discos voadores, robôs de lata que parecem saídos de O Mágico de Oz e até um simulacro de porta-aviões construído com chapas de aço galvanizado, instalado no topo do pavilhão externo do CCBB.

A mostra fica em Brasília até o fim de março, chega a São Paulo em abril e segue em julho para o Rio de Janeiro. Na Capital, Cai Guo-Qiang recebeu a reportagem do Caderno 2 para mostrar esses objetos e os gigantescos desenhos feitos com pólvora - uma stravaganza em que se destacam figuras inspiradas no carnaval brasileiro ao lado de naves espaciais e submarinos.

Da Vincis do Povo pretende, segundo ele, ser uma representação do sonho de liberdade, metaforizado nessas engenhocas voadoras e submarinas dos camponeses da China. No papel de artista curador, Cai Guo-Qiang trouxe alguns exemplares curiosos para a mostra, entre eles os destroços de um minúsculo avião feito de sucata que caiu e levou à morte seu criador, Tan Chengnian, e a esposa, em 2007.

A exposição reúne ainda aviões feitos com tubulação de esgoto sanitário, helicópteros de madeira e até um pequeno submarino pacientemente montado por um homem que hipotecou sua casa para realizar seu sonho. O submarino idealizado por Li Yuming domina o pavilhão do CCBB onde foi instalado um tanque de gelo que representa o Ártico. Cai Guo-Qiang, montado num riquixá puxado por um robô que fala - um dos 29 da exposição -, aponta mais uma contribuição de outro camponês, Wu Yulu, a quem encomendou replicantes de lata, quatro robôs que parodiam artistas ocidentais em ação.

Dois desses replicantes pintam como Jackson Pollock e Yves Klein, um cospe água como o conceitual Bruce Nauman (imitando sua performance Fonte) e outro pinta bolinhas, como Damien Hirst, o homem dos tubarões em formol. Definido como um artista híbrido que funde arte e entretenimento, o chinês jura não se tratar de uma crítica aos contemporâneos ocidentais: "É apenas brincadeira".

Cai Guo-Qiang não se importa com classificações apressadas, nem mesmo ao ser criticado pelo dissidente Ai Weiwei por ter promovido espetáculos pirotécnicos como o da Olimpíada de Pequim em 2008 - Weiwei condenou sua neutralidade diante do uso político de sua arte pelo governo chinês. "Não faço obras para agradar a políticos, não sou representado por nenhuma galeria e pretendo continuar independente", responde Cai Guo-Qiang, que passou a viver fora da China em 1986 - primeiramente no Japão, e, desde 1995, em Nova York, onde mora com a mulher e duas filhas.

O curador da mostra, Marcello Dantas, atesta a independência ideológica de Cai Guo-Qiang, definindo-o como um construtor de cenários. De fato, o artista chinês, nascido há 55 anos em Quanzhou, província de Fujian, filho de um calígrafo e pintor, cresceu com a certeza de que na China tudo é teatro. Na infância, ouvia tiros e explosões de fogos de artifício a todo momento, vindos de uma unidade militar. Adolescente, participou de seguidas paradas para celebrar a Revolução Cultural maoista. Aos 20, tentou a carreira de ator em filmes de kung fu, até escolher o teatro e se tornar cenógrafo. Daí para as performances com pólvora foi um passo.

Foi em 1989 que Cai Guo-Qiang deu início a seu projeto mais ambicioso, feito ao ar livre em áreas de grandes dimensões. Espalhando pólvora e usando fogos de artifício, esse seu "projeto para atrair extraterrestres" foi tomando proporções inesperadas, até que a décima edição, em 1993, alcançou uma pista de 10 quilômetros de extensão a partir do fim da Grande Muralha da China, onde começa o deserto de Gobi. Nessa pista, após 15 minutos de explosão, um dragão surgiu das dunas. O que era combustível para máquinas de guerra virava, enfim, o combustível da arte. "Como testemunha do uso da pólvora para fins bélicos, queria mostrar que ela, símbolo de destruição, podia também servir a um propósito lúdico."

Esses espetáculos pirotécnicos, visíveis do espaço, evoluíram de uma instalação que fazia referência ao massacre na Praça da Paz Celestial (1989). A função desses espetáculos era, então, servir de contraponto às demonstrações de força dos militares. Em Brasília, centro nervoso do poder, ele promoveu uma verdadeira festa dionisíaca ao executar os gigantescos desenhos com pólvora - uma invenção chinesa - no chão do CCBB, usando uma iconografia baseada no carnaval brasileiro. Essa tecnologia do fogo foi aprendida a duras penas e, hoje, Cai Guo-Qiang tem pleno domínio técnico sobre a pólvora que, espalhada pelo papel japonês, adquire a aparência de um desenho rupestre amalgamado com tradicionais paisagens chinesas.

Esses desenhos são plenos de referências narrativas. Diante de um público numeroso, ele espalha a pólvora sobre uma tela ou papel japonês, sempre recorrendo à figuração. O material explosivo é coberto por cartões sobre os quais o artista coloca tijolos ou pedras para conter a explosão e estabelecer os limites do desenho. Segue-se, então, a ignição e um espetáculo pirotécnico que acaba invariavelmente com ajudantes apagando o fogo. Essa criação coletiva obedece ao primeiro mandamento de Cai Guo-Qiang: o de incorporar outras pessoas num trabalho conjunto, como fez com os camponeses chineses. "Todos somos inventores", diz. "O próprio trabalho de transformação da pólvora em algo criativo traduz minha crença no encontro entre ciência, arte e artesanato." Efêmera, a performance se transforma numa obra site specific, formada por grandes painéis (cada conjunto é diferente nas cidades que recebem a exposição).

O propósito de estabelecer essa diferença temática entre os desenhos está ligado, segundo ele, à especificidade cultural de cada região. Habituado a percorrer o interior da China, Cai Guo-Qiang desenvolveu projetos com comunidades locais que trabalharam com ele em grandes instalações destinadas ao resgate de antigos signos e tradições chinesas. História local versus globalização é seu tema. E ele assume não entender o que chamam de arte contemporânea, pois se considera um artista na tradição de El Greco - que estudou pintura na Itália, foi para a Espanha e morreu como expatriado em Toledo.

"Com El Greco, a arte virou uma ponte para o mundo místico." Cai tenta emular seu gesto, ao sugerir a presença de ETs entre nós. "El Greco me faz pensar, pois suas andanças pela Europa lembram as minhas, que saí da China, passei pelo Japão e hoje vivo na América." As pinturas de Cai Guo-Qiang dos anos 1980, aliás, evocam, curiosamente, as cores e as formas alongadas de El Greco. Disposição ao diálogo não falta a ele.

CAI GUO-QIANG

ARTISTA PLÁSTICO

Vivendo no Japão entre 1986 e 1995, o chinês, de 55 anos, começou a usar pólvora em desenhos, partindo para experiências com explosivos em larga escala. Em 2005, ele foi curador do primeiro pavilhão da China na Bienal de Veneza.

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