Café com leite, o grande encontro

Com estreia marcada para este mês, 'Marcha para Zenturo' marca a união do Espanca!, de Minas, e do paulistano grupo XIX de Teatro

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

07 Julho 2010 | 00h00

Casamento. Luiz Fernando Marques, do grupo XIX de Teatro, e Grace Passô, da cia. de Belo Horizonte, Espanca!, estão reunidos desde fevereiro para a montagem do novo espetáculo

 

 

Acabou em casamento. E foi um desfecho dos mais previsíveis. Antes mesmo de serem apresentados, eles já começaram a prestar atenção um no outro. Primeiro, deram para se trombar aqui e ali. Depois, viriam os flertes, as descobertas de gostos e predileções em comum e todo mundo sempre a insinuar que eles combinavam tanto. Não demorou muito até, enfim, tomarem a decisão de morar juntos.

Mas, antes que o leitor se pergunte qual o sentido de recompor um romance assim tão sem imaginação, convém avisar que o enlace em questão não envolve um casal, mas duas companhias teatrais: o Espanca!, de Belo Horizonte, e o paulistano grupo XIX.

No dia 16, eles revelam o primeiro resultado dessa união: o espetáculo Marcha para Zenturo. Com estreia marcada para o Festival Internacional de São José do Rio Preto e temporada em São Paulo prevista para setembro, a peça esquadrinha o reencontro de um grupo de amigos em uma noite de réveillon.

Como se por ironia, os dois coletivos que tão bem se entenderam pretendem investigar justamente as dificuldades de comunicação no mundo veloz e vertiginoso que o novo milênio anuncia. "A virtualidade chegou de forma abrupta e mudou todas as relações, as possibilidades de encontro, alterou o conceito de distância. O que nos interessa é criar uma ponte lúcida com essa sociedade espantada pelo boom tecnológico", comenta Grace Passô, do Espanca!, que assina o texto da nova montagem e, mais uma vez, mira as relações humanas pela perspectiva do afeto.

É a vontade de falar sobre o que chama de "nosso tempo" que aproximou Grace, do XIX, do diretor Luiz Fernando Marques. Para isso, a dramaturga e os atores de sua cia. se mudaram de Minas desde fevereiro. Antes, já tinham passado por aqui outras vezes. Em 2008, ensaiaram uma convivência de dois meses e criaram uma prévia do que apresentam agora, uma cena a que deram o nome de Barco de Gelo. "A gente é de uma mesma geração e isso nos ajuda a ter um vocabulário comum. Mas era só isso. Não combinamos nada", ressalva Marques. "A gente começou de um jeito que acho que nenhum dos dois nunca tinha começado: do zero."

Futuro comum. Sem script ou planejamento prévio, os grupos se encontraram em momentos muito semelhantes de suas trajetórias: para ambos, o sucesso veio instantaneamente em seus espetáculos de estreia. Por Elise revelou Grace Passô para a dramaturgia nacional e rendeu-lhe, de cara, os prêmios Shell e APCA. Hysteria foi saudada como um marco de encenação e mostrava uma companhia de interpretação intimista, o XIX, devotada ao processo de criação coletivo: tudo, do texto aos figurinos, sempre feito em conjunto por seus integrantes. Quando se juntaram, cada um já havia concluído o terceiro trabalho e carregava a impressão de ter encerrado um ciclo.

"Estava com uma vontade muito grande de me reinventar e não de reafirmar um método de criação", aponta Grace. "Queria uma novidade, algo que fugisse um pouco da maneira como as coisas já aconteciam naturalmente nos nossos processos."

De fato, os dois parecem ter encontrado caminhos alternativos na concepção de Marcha para Zenturo. No caso do XIX, porém, as diferenças soam ainda mais evidentes. A própria sede do grupo, um casarão tombado na nostálgica Vila Maria Zélia, no Belenzinho, sempre pareceu fornecer a chave para entender sua proposta: um resgate da história cotidiana brasileira pelo teatro. Mas o passado, ao que parece, era só um pretexto.

"Talvez exista um estranhamento porque nos ligaram a essa questão histórica. Mas nunca foi esse o nosso desejo. A história sempre nos serviu para falar de agora", lembra o diretor. "Não por acaso, nossos trabalhos são marcados pela interatividade com a plateia, porque no XIX ela nasce desse desejo, para que o tempo de hoje tenha sempre voz."  

PERGUNTAS & RESPOSTAS

Grace Passô - O que você está pensando sobre teatro agora?

Luiz Fernando Marques - Penso que o teatro, cada vez mais, só vale a pena se houver necessidade de falar alguma coisa. Uma convicção de que os encontros têm que ser inteiros, verdadeiros, sem hierarquias.

 

Luiz Fernando Marques – Você tinha algum receio de trabalhar com a gente?

Grace Passô – Tinha medo do processo de colaboração de vocês, achava que podia haver um olhar muito acadêmico. Foi uma surpresa descobrir que ele não é um método e não sufoca a inspiração.

 

 

 

PROJETO RUMOS INCORPORA INTERCÂMBIO

 

O formato de residência artística de grupos de teatro também chamou atenção do instituto Itaú Cultural, que lança uma nova modalidade do projeto Rumos, dedicada exclusivamente a propostas de intercâmbio. "Durante três anos, ouvimos as demandas de companhias de todas as regiões do País e detectamos essa necessidade", diz Sônia Sobral, gerente do núcleo de artes cênicas da instituição.

 

O edital, que tem inscrições abertas até o dia 30, deve acolher grupos que queiram fazer uma pesquisa juntos. Como resultado, os escolhidos não precisarão apresentar um espetáculo, mas apenas o resultado do tempo de convivência. "Esse encontro não pode acontecer apenas no patamar da discussão, do debate de políticas. Ele também tem que se dar na criação", aponta Sônia. "Os grupos precisam de um tempo de pesquisa." É possível se inscrever no edital pelo site www.itaucultural.org.br.

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